terça-feira, 18 de junho de 2013

Veja fotos de protestos realizados pelo país nesta segunda-feira

17/06/2013 16h09 - Atualizado em 18/06/2013 13h43

Veja fotos de protestos realizados pelo país nesta segunda-feira

Várias capitais realizam atos, entre elas São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.
  • Policial joga spray de pimenta em manifestante no Rio de Janeiro
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Policial joga spray de pimenta em manifestante no Rio de Janeiro

O Estado contra a sociedade

Onda de protestos contra aumento das passagens de ônibus em São Paulo provoca reação exagerada da polícia e declarações polêmicas por parte dos governantes

Gabriela Nogueira Cunha
“Se a passagem não baixar, a cidade vai parar.” E parou. Não uma, mas várias vezes. Na última semana, uma série de protestos levou milhares de pessoas às ruas de São Paulo contra o reajuste de R$ 0,20 na tarifa cobrada pela passagem de ônibus. O aumento gerou uma onda de insatisfação tão grande que foi capaz de tirar até mesmo a tal geração Y da frente de seus computadores. Encabeçados pelo Movimento Passe Livre, os manifestantes deram nó no trânsito ao fecharem as principais avenidas da cidade. O fato foi encarado pelas autoridades como crime contra a ordem pública e a resposta dos governantes veio por meio de um truculento aparato de “segurança”, expandindo o movimento para além dos próprios limites.
O reajuste das passagens na capital paulista foi anunciado pelo prefeito Fernando Haddad (PT) em maio deste ano e entrou em vigor no último dia 2 de junho, num domingo. Na quinta-feira da mesma semana, a população já tomava conta das ruas e uma faixa, entre tantas outras, com os dizeres “vamos repetir Porto Alegre” deixava claro: a onda de protestos iniciada na capital gaúcha tomaria conta do Brasil. Porto Alegre foi o primeiro caso em que as manifestações conseguiram barrar o reajuste da tarifa, reduzindo o valor da passagem de R$ 3,05 para R$ 2,85 e mostrando que lutas populares, ao contrário do que pensa o senso comum, têm lá sua força.
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Na última terça-feira (11), em Paris, o governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), afirmou que a interrupção do trânsito durante um protesto é “ato de vandalismo” e, portanto, deve ser tratado como "caso de polícia". E como caso de polícia ele vem sendo tratado. Só nesta quinta-feira (13), a polícia deteve ao menos 235 pessoas durante o quarto dia de manifestações, que reuniu cerca de 5.000 manifestantes. Entre os presos estavam um repórter da Carta Capital e outras 40 pessoas, levados para a 78º DP, nos Jardins, por porte de vinagre (que, em tese, ameniza os efeitos do gás lacrimogênio). Quatro jovens seguem presos, sem direito a pagamento de fiança. O motivo? Formação de quadrilha. Aos afiançáveis, a bagatela é de R$ 20 mil.
Em entrevista no Palácio dos Bandeirantes realizada nesta sexta-feira (14), Alckmin disse que a corporação tem o dever de "proteger a população, garantir o direito de o comércio abrir e preservar o patrimônio público". Além disso, o governador afirmou que os batalhões de choque da Polícia Militar agem desta forma no intuito de evitar manifestações mais violentas.
Foto: Passe Livre São Paulo
Foto: Passe Livre São Paulo
Não é de hoje que “questão social é caso de polícia”. A célebre expressão foi atribuída ao ex-presidente brasileiro Washington Luís e resumiu sua postura frente às revoltas populares que incomodavam o governo, entre 1926 e 1930.  Aparentemente, 80 anos se passaram e a ação truculenta do Estado diante de mobilizações sociais permanece. Para o historiador Paulo Terra, a conivência da grande imprensa com o discurso marginalizante acompanha este processo.

“Ambas as formas de criminalização, por parte do Estado e por parte da imprensa, não são novidade na história do país. Desde o primeiro movimento contra o aumento do valor das passagens, ainda no século XIX, é possível observar a forte repressão policial e a cobertura, muitas vezes, detratora nas folhas dos jornais”, diz ele referindo-se à chamada Revolta do Vintém, de 1879.
Em ação semelhante a das autoridades paulistas, o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB) tentou deslegitimar as manifestações ao afirmar, nesta quinta-feira, que os protestos têm um “ar político” e “não espontâneo”.  Segundo ele, os “baderneiros” não estavam ali para defender interesses públicos, mas para gerar um clima de confusão.
A postura de Alckmin e Cabral – assim como do prefeito Haddad que negou qualquer redução nas tarifas - conta, ainda, com o apoio do Governo Federal. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo (PT), também andou tecendo críticas às manifestações e pediu à Polícia Federal o acompanhamento dos protestos. “O governo federal está à disposição do governo de São Paulo e de qualquer outro estado em que isso aconteça para apoiar naquilo que for solicitado”, disse.
Para o historiador Rafael Lima, da PUC-Rio, não há justificativa plausível para a truculência do poder público que – independente da filiação partidária – acusa os manifestantes de vandalismo e formação de quadrilha. “É deplorável que a maioria dos meios de comunicação subestime nossa inteligência e acusem as mobilizações de constituírem veículo de interesse político-partidário”, argumenta.
E conclui: “As mobilizações ganham as ruas porque é nelas que a população se sente mais ultrajada, mais usurpada em sua cidadania, mais desrespeitada enquanto coletividade. Na rua está a alma da cidade, para usar a feliz expressão de João do Rio. E se causam transtornos, paciência. Significa que, felizmente, a cidade ainda dá sinais de vida em meio a tanta especulação e espetacularização.”







O protesto de 17 de junho de 2013

O protesto de 17 de junho de 2013

Depoimentos dos historiadores e jornalistas sobre o que eles viram e o que eles registraram nesse dia que vai ser lembrado, estudado, pesquisado no futuro

Revista de História
  • Multidão sobe as escadarias do Theatro Municipal / Foto: Bernardo Santos
    Multidão sobe as escadarias do Theatro Municipal / Foto: Bernardo Santos
    Dezessete de junho de 2013. Uma data que provavelmente vai ficar para a História. Foi quando cerca de 100 mil pessoas se reuniram, segundo estimativas, e apenas no Rio, em um protesto multifacetado, que se iniciou há poucas semanas contra o aumento das passagens de ônibus municipais, mas que agora parece juntar outras reivindicações. A redação da Revista de História fica a uma quadra da Avenida Rio Branco, onde ocorreu a manifestação no Rio e muitos dos nossos historiadores e jornalistas participaram do movimento. Vamos publicar, ao longo do dia, os seus depoimentos sobre o que eles viram, o que eles registraram nesse dia que vai ser lembrado, estudado, pesquisado no futuro.
    Carolina Ferro - Historiadora
    A concentração na Candelária estava marcada para as 17 horas, mas meus amigos e eu saímos do trabalho por volta de 17:30h. Caminhamos pela rua Uruguaiana, paralela a Rio Branco por onde passaria a manifestação. No caminho, vimos inúmeros policiais municipais ajudando pessoas a encontrar o protesto e vários manifestantes preocupados em comprar máscaras para se proteger do gás lacrimogêneo. Foi bonito ver as pessoas caminhando de branco, mas foi feio vê-las carregando lenços no rosto encharcados de vinagre. Ao chegar à Avenida Presidente Vargas, nos juntamos à multidão que portava faixas contra o aumento da passagem, mas também a favor de outras melhorias para a população, principalmente na saúde e na educação. Era visível que o movimento não era por 20 centavos, mas por 20 X 20 motivos de insatisfação de uma população que vem sendo negligenciada por muitos anos pelo poder público. Ao chegar à famosa Avenida Rio Branco, muitos rostos se encheram de lágrimas. Foi belo ver que além dos muitos jovens que gritavam com todas as forças, havia idosos, cadeirantes, homens e mulheres de roupas sociais e artistas. De fato é um movimento do povo na maior amplitude da palavra. Do alto dos arranha-céus do centro financeiro, cultural e comercial da cidade, trabalhadores acompanhavam a passeata piscando suas luzes, abanando panos brancos e jogando papel picado. Voltamos mais cedo e, como bons historiadores, fomos ver as notícias. Vimos fotos de mais de 100 mil pessoas caminhando por justiça, mas também algumas com dezenas de indivíduos que se exaltaram demais em frente à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. A tristeza tomou conta da alegria. “Não queremos violência”, era o que dizia um dos gritos dos manifestantes. E com certeza não é o que quer a maioria. Queremos paz, mas queremos paz com voz, sem medo.
    Felipe Rodrigues - Estudante de história
    Ontem, 17/06/2013, foi um dia que ficou na história do Brasil. A “Revolta do Vinagre”, como está sendo chamada, levou mais de 100 mil pessoas as ruas, segundo estimativa da Coppe/UFRJ (a PM estima em 40 mil). Para mim, concluinte do curso de História da Uerj/FFp, a passeata significou uma aula na prática de como exercer a cidadania, exigindo seus direitos. Discutimos tanto nas salas fechadas das Universidades questões como “Democracia”, “Direitos”, “Estado”, “Representação Política”; conceitos tão fechados que parecem distantes do nosso cotidiano. Ontem essa distância ruiu junto com o sentimento de impotência que assolava o povo brasileiro há anos! Foi lindo ver pessoas tão diferentes em sua individualidade, mas com um sentimento único, conectadas em um só coro: O RIO ACORDOU! E não só o Rio de Janeiro, mas todo o Brasil e brasileiros, já que em várias partes do mundo houve manifestação. Pude presenciar e fazer parte de uma das maiores manifestações espontâneas que a sociedade brasileira já presenciou. Foi uma mistura de satisfação, revolta, orgulho e alegria o que passei naquelas horas entre a Av. Presidente Vargas e a Rio Branco. O que posso afirmar é que o meu sentimento e tudo aquilo que presenciei na passeata não sairá da minha mente e do meu coração. Minha vida está dividida entre o antes e o depois do dia 17/06/2013.
    Janine Justen - estudante de jornalismo
    Nada como ser mais um na multidão. Sim, de fato, uma multidão. Mais de 100 mil pessoas que gritavam por seus direitos e exigiam respostas de um governo falacioso, de interesses para lá de questionáveis. Na Avenida Rio Branco, indignação foi a palavra de ordem nesta segunda-feira. Estamos fazendo, escrevendo História. Tenho orgulho de fazer parte disso, como cidadã e jornalista. Muda, Brasil! Rumo a uma real democracia.
    Joice Santos - Historiadora
    Ir à manifestação ontem foi praticamente uma jornada. Desde cedo um clima de pavor e animação tomavam conta de mim. De pavor, pois desde cedo a mídia noticiava o número de soldados, cavalaria, paraquedistas e cachorros dispensados para o evento, além de um receio de um confronto com a polícia. Apesar desse sentimento, segui o dia marcando lugares e horários com alguns amigos que também pretendiam ir à manifestação.
    Uma hora antes do evento, surgiram, nas redes sociais, notícias de que a polícia estava revistando os manifestantes que chegavam às estações de metrô e/ou recolhendo celulares – notícias que não foram ou não podem ser confirmadas. O que aumentou ainda mais o clima de tensão. No entanto, o desejo de fazer parte da manifestação, lutar pelos nossos direitos tornou-se maior que qualquer temor e fez com quem não pensava em ir à manifestação fosse.
    O grupo, do qual fazia parte, decidiu ir pela Rua Uruguaiana já que a manifestação havia começado na Av. Rio Branco, havia muitos guardas municipais e policiais ao longo do trajeto mas não foi um impedimento para que nós e outras pessoas seguíssemos até a Avenida Presidente Vargas.
    Lá chegando, encontramos um enorme grupo de manifestantes, a maioria de jovens, cantando, gritando palavras de ordem, articulando formas de dispersão e encontro caso houvesse algum embate, levantando seus cartazes com diversas demandas. Não tinha como não se emocionar com os que acreditam que é possível lutar por direitos saindo às ruas e, com isso, provocar mudanças. E eu ainda nem havia chegado na av. Rio Branco.
    Quando enfim conseguimos entrar na avenida principal, foi impactante ver aquela multidão cantando, pessoas no prédio piscando as luzes à medida que passávamos e gritávamos: “Quem apoia piscaa luz, quem apoia piscaluz”. Mais impactante foi percorrer praticamente toda a Rio Branco sem ter visto uma discussão e nem um princípio de briga.
    Num dado momento, escutamos um carro de som, se não me engano da UNE, e todo mundo abriu passagem quando o homem que estava no caminhou falou ao microfone: “Já somos 50 mil, galera!”. Os manifestantes foram à loucura. Foi emocionante! Não só por estar na passeata, mas por terem 50 mil pessoas acreditando na mobilização.
    Não fiquei até o final da manifestação. Só quando estava indo pra casa soube que a manifestação havia levado 100 mil pessoas às ruas e que um grupo bem menor havia iniciado atos de vandalismo na Alerj e no Paço Imperial. Discordo de atos que depredam os espaços públicos, seja dos eventos que aconteceram ontem quanto os que acontecem diariamente como o sucateamento do ensino e da saúde.
    Ao fim da manifestação, fiquei com a sensação de que é possível uma mobilização da população para lutar por suas reivindicações. Com os eventos de ontem, também fiquei com uma questão: onde queremos chegar? Ou, qual é ou quais são nossos principais objetivos?
    Mais cedo um amigo postou um trecho de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll,que talvez nos ajude a pensar sobre isso:
    “Podes dizer-me, por favor, que caminho devo seguir para sair daqui?
    Isso depende muito de para onde queres ir - respondeu o gato.
    Preocupa-me pouco aonde ir - disse Alice.
    Nesse caso, pouco importa o caminho que sigas - replicou o gato.”
    Agora que todos foram mobilizados, acho que é chegada a hora de definir exatamente pra onde queremos ir, só assim podemos estabelecer o melhor percurso.
    Roberta Souza - Historiadora
    Dessa vez é diferente. Os cidadãos não "assistiram alheios a tudo". Não é fato que estamos saindo do trabalho, dando menos atenção aos nossos filhos por 20 centavos. Estamos lutando pra fazer prevalecer o está estabelecido na Constituição. Que a manifestação das ruas seja refletida nas urnas.
    Ronaldo Pelli – Jornalista
    Foi uma festa. E como toda festa, há com os com-noção e os sem-noção, sendo “noção” aqui entendida em vários sentidos. Seja o de ter alguma ideia do que estava acontecendo, seja o de perder o respeito pelos outros.  E como toda festa também, havia animação. A Orquestra Voadora estava presente. Havia gritos de carnaval. Gritos do futebol. Será que precisamos mesmo aprender a protestar? Por que todo protesto deve ter raiva mesmo? Havia muito humor também nos cartazes: “R$ 2,95? Só com open bar”, dizia um, em referência o novo preço da passagem dos ônibus do Rio. “Ei polícia / vinagre é uma delícia”, gritavam outros.
    “O gigante acordou” era um dos “slogans” mais pronunciados. “Slogans”, não gritos de guerra, não gritos de ordem. “Fora... (acrescente o nome de um político no cargo executivo)” era outro. Nenhuma esfera do governo foi perdoada.
    Fiquei parado durante um tempo na Avenida Rio Branco, perto da Avenida Sete de Setembro, a rua que leva à redação da Revista de História. Algo como uma hora. Parado, vendo o movimento de uma multidão que descia a antiga Avenida Central em direção à Cinelândia. Eram vários blocos compactos de manifestantes. Os primeiros, os que iam à frente de todos, talvez não fossem quem mais representava a maioria. Porque empunhavam flâmulas partidárias, que foram rechaçadas pelo restante do grupo aos gritos de “abaixa a bandeira / abaixa a bandeira”. Os protestos parecem deixar uma informação clara: a política partidária, como nós a conhecemos agora, “não me representa”, para usar uma expressão atual.
    Em outro “bloco”, um minicarro de som. A moça no microfone, provavelmente uma paulista, pede para todo mundo abaixar, e depois, mundo se levanta num catarse coletiva. Era uma festa, uma festa com gente não convidada.
    Ao meu lado, estavam três catadores de papel, atividade que é forte na região. Era a hora de eles trabalharem. Estavam lá, assistindo a tudo, ao meu lado, entre o entediado e o bocejante. Em certo momento, passa um sujeito com um cartaz cheio de informações e para em frente a eles, como que quisesse mostrar algo. Só sai quando um dos catadores acena com a cabeça, como se dissesse, já entendi, agora você me dá licença?
    Ao sair da manifestação, me lembrei de Machado de Assis, e de suas “Memórias póstumas de Brás Cubas”. Logo no início do livro, na sua dedicatória ao leitor, o defunto autor fala que escreveu suas memórias com “a pena da galhofa e a tinta da melancolia”. Talvez, nessa frase, Machado tenha identificado o caráter do povo brasileiro, de uma maneira que quase ninguém mais percebeu. Na manifestação, essa nossa “galhofa” aparecia em cada um dos momentos festivos, cada uma das piadas, das músicas, das gracinhas. Já a melancolia foi o que nos levou às ruas. Após uma década acumulando essa bile amarga, a gota de uma moeda imaginária de 20 centavos, transbordou o pote. Agora, a melancolia se travestiu de manifestações bem menos passivas. Uma melancolia que às vezes pode ser até raivosa.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

15/6/2013 às 00h17 (Atualizado em 15/6/2013 às 10h16)

SP: aumento de R$ 0,20 na passagem foi só a "gota-d'água" para protestos, avaliam especialistas 

Manifestações revelam insatisfações da população em relação a diversos problemas sociais
Ana Ignacio, do R7
Desde o início do mês de junho, protestos contra o aumento da tarifa do transporte público em São Paulo passaram a tomar importantes ruas da capital paulista. Indignadas com o acréscimo de R$ 0,20 ao preço da passagem de ônibus e metrô, milhares de pessoas se organizaram pela internet e ocuparam a cidade. Dessa vez, de forma real. No entanto, além dos centavos de aumento — que, como indicam especialistas fazem muita diferença para a grande maioria da população — outras insatisfações da sociedade vêm à tona.
Para Lúcio Flávio Rodrigues e Almeida, coordenador do núcleo de estudos de ideologia e lutas sociais da PUC-SP, a questão das passagens é apenas uma parte de algo maior.
— As pessoas estão falando de problemas que estão se acumulando durante muito tempo. A questão das passagens é uma parte de uma questão muito mais ampla que abrange o urbanismo e o modo de vida urbana no Brasil, a começar pelo transporte público. Digamos que há um vandalismo sócio-político muito grande que governa a cidade e o País há cerca de mais de meio século.
Renato Sérgio de Lima, sociólogo e dirigente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, também diz acreditar que a nova tarifa não é o único problema.
— A manifestação, na prática, revela uma insatisfação difusa de cada vez mais parcelas da população. A gota-d’água foi os R$ 0,20, mas temos muitas outras desigualdades e problemas que a população enfrenta no dia a dia e não foram resolvidas ainda. A tarifa é a gota-d’água de processos de insatisfação muito mais amplos e difusos.
Além disso, os estudiosos acreditam que os brasileiros foram impulsionados a ir para as ruas por causa da “nova onda” de manifestações populares globais que têm ocorrido nos últimos anos no mundo árabe, Europa e América Latina. Humberto Dantas, cientista político do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa), avalia que os protestos ocorridos em outros países é um dos motivos para que haja esse “estouro” nas manifestações contra o aumento da tarifa de ônibus em São Paulo.
— Em primeiro lugar, podemos estar sendo influenciados por outras manifestações e movimentos mundo afora. Segundo, é que parece existir uma distância grande entre um discurso otimista e colorido do governo, principalmente do governo federal, dizendo que está tudo bem e as pessoas estão ligando os pontos e vendo que nesse instante o governo tem dificuldade de fazer que as coisas aconteçam. E a última questão é que existe um histórico no que diz respeito a cidade de São Paulo de organização em torno desse movimento de “catraca livre”.
Democracia em xeque
Apesar de afirmarem que as manifestações são positivas e importantes para a sociedade, os especialistas concordam, sem generalizações, que houve abuso de ambas as partes durante os protestos. Os atos em São Paulo foram marcados por diversos confrontos, detenções e pessoas feridas. Para Dantas, a ação da Polícia Militar tem sido equivocada.
— Você não tem um aparato repressor preparado para lidar com esse tipo de manifestação da sociedade. Polícia Militar, seja de qual Estado for, definitivamente não esta preparada para lidar com questões relacionadas a esse semblante da democracia.
Dessa forma, com a forte repressão contra os manifestantes, a sociedade acaba ficando separada.
— A gente vai ter pessoas de cunho mais conservador achando um grande absurdo isso tudo que está acontecendo, achando que é bizarro de manifestar, e vamos ter gente achando bizarro reprimir. A gente vai segregar a sociedade em dois grandes grupos e esses grupos não vão se reconhecer e a gente vai ter a democracia se fragilizando.
Almeida também explica que, dependendo do resultado das manifestações, a democracia no Brasil pode sofrer.
— Se nada acontecer, o perigo de uma decepção tomar conta das pessoas é muito grande e muita gente pode se desencantar da política. Desencantar-se da política pode levar a saídas muito perigosas como apoiar, por exemplo, regimes autoritários e passar a achar que democrática não serve para nada.
Sem partido
Outra característica levantada pelos estudiosos em relação aos atos ocorridos em São Paulo é a ausência de um caráter partidário à manifestação. Para Lima, está claro que a bandeira dos atos é outra.
— Na verdade a questão partidária está longe de ser a pauta. Esse movimento é social, não é partidário. O que está em jogo hoje é mobilidade urbana, como a população ocupa a cidade, como exerce seu direito de ir e vir.
Dantas concorda.
— A sociedade paulistana opta por uma ruptura no poder e, mesmo com essa ruptura, houve aumento de tarifa. Mesmo com a mudança no poder o movimento contra a prefeitura em relação ao aumento da tarifa do ônibus é mantido e isso descaracteriza a ideia de que é um movimento partidarizado. Há algo que indica que esse movimento transcende a lógica partidária.

17/06/2013 - 19h12 Protesto em Curitiba contra aumento da tarifa reúne 5.000 pessoas

Cerca de 5.000 pessoas, segundo a PM (Polícia Militar), participam de mais um protesto contra o aumento da tarifa de ônibus em Curitiba, iniciado por volta das 18h, no centro da cidade.
A praça Rui Barbosa e ruas próximas estão lotadas. Manifestantes falam na participação de 20 a 30 mil pessoas.
Pelo menos até às 19h, a manifestação seguia pacífica. Ruas foram fechadas para o tráfego pelos participantes, que devem caminhar até a sede da prefeitura, num percurso definido na hora.
A Guarda Municipal e a Polícia Militar acompanham a movimentação à distância.
Em março, a passagem de ônibus em Curitiba subiu cerca de 10%, para R$ 2,85.
A manifestação de hoje reivindica a redução da tarifa para R$ 2,60 (preço anterior) e defende o passe livre para estudantes e a criação de uma empresa pública para gerir o transporte na cidade.
"O transporte é um direito e não deve ser tratado como mercadoria", afirma um manifesto entregue hoje nas ruas, assinado pela Frente de Luta pelo Transporte de Curitiba, que congrega várias organizações e coletivos.
Franklin de Freitas/Folhapress
Manifestantes percorrem ruas do centro de Curitiba durante protesto
Manifestantes percorrem ruas do centro de Curitiba durante protesto
A prefeitura diz ser favorável à manifestação e fez uma reunião na tarde de hoje com representantes do grupo para pedir pela "segurança" da população e dos participantes do evento.
O prefeito Gustavo Fruet (PDT) ainda não comentou as recentes manifestações, mas, em notas oficiais, a gestão já afirmou que "a redução de impostos diminui a despesa mensal para cobrir o rombo, mas não permite redução de tarifa."
Segundo a nota, "a atitude da prefeitura é de responsabilidade, para retomar os investimentos, a qualidade e evitar que o transporte coletivo de Curitiba volte a quebrar"

Bruno Gagliasso veste a bandeira do Brasil e protesta no Centro do Rio Leia mais: http://extra.globo.com/famosos/bruno-gagliasso-veste-bandeira-do-brasil-protesta-no-centro-do-rio-

Misturado no meio da multidão, o ator Bruno Gagliasso também foi para as ruas do Centro do Rio para protestar contra os últimos atos do governo, que chegou ao estopim após o aumento no preço das passagens de ônibus. O ator vestiu uma bandeira do Brasil nas costas e gritou palavras de ordem ao lado de amigos. Raoni Carneiro e Fernanda Rodrigues também acompanharam o protesto.
Bruno Gagliasso levanta a bandeira do Brasil
Bruno Gagliasso levanta a bandeira do Brasil Foto: Xande Nolasco
Fernanda Rodrigues ao lado do marido, Raoni Carneiro, na manisfestação
Fernanda Rodrigues ao lado do marido, Raoni Carneiro, na manisfestação Foto: Waldney Souza
Em outros pontos da cidade, Leandra Leal e Chandelly Braz, além de Thaila Ayala, também protestaram. Bernardo Mendes, ator que ficou conhecido com o seu personagem Bodão, em “Malhação”, também juntou-se ao time dos famosos de cara pintada e ajudou a puxar o protesto.
Chandelly Braz e Leandra Leal apoiam o movimento
Chandelly Braz e Leandra Leal apoiam o movimento Foto: Marcio Honorato/ Honopix
Leandra Leal com uma amiga na manifestação
Leandra Leal com uma amiga na manifestação Foto: Marcio Honorato/ Honopix
As manifestações tomaram conta do Brasil nesta segunda-feira e se espalhou por Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte.
Bruno Gagliasso ao lado de um manifestante que diz: 'Saímos do Facebook' pra mudar o país
Bruno Gagliasso ao lado de um manifestante que diz: 'Saímos do Facebook' pra mudar o país Foto: Xande Nolasco



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Novos protestos no Brasil ganham destaque na imprensa internacional Leia mais: http://extra.globo.com/noticias/mundo/novos-protestos-no-brasil-ganham-destaque-na-imprensa-internacional

Os protestos realizados nesta segunda-feira em várias cidades brasileiras - como Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte - já estampam os principais sites de notícia internacionais. No final da tarde, milhares de manifestantes foram às ruas após uma onda de protestos, iniciados em janeiro deste ano devido ao aumento no preço da passagem do transporte público, ganhar destaque na imprensa e na internet, principal canal de mobilização das manifestações.
O "The New York Times" chamou a atenção para o número de manifestantes nos protetos. De acordo com a reportagem publicada na versão online do jornal, "uma exibição notável de força para uma agitação que começou com pequenos protestos contra o aumento dos ônibus de tarifa, em seguida, evoluiu para um movimento mais amplo por parte de grupos e indivíduos irado sobre uma série de questões".


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