domingo, 9 de janeiro de 2011

varadouro 5º

Nas folhas da seringueira
Por Elson Martins
“Não façam um jornal para o Rio e São Paulo! VIVA O ACRE!”
O apelo escrito à mão e em letras maiúsculas, consta de uma cartinha amável que o genial cartunista Henfil, irmão do sociólogo Betinho enviou ao Varadouro em novembro de 1977. Henfil tinha recebido os três primeiros números do Jornal em Lagoa Nova, no Rio Grande do Norte, onde se exilara voluntariamente. Confessando-se emocionado, escreveu:
“Povo do Varadouro! Recebi finalmente três jornais. Só achei uma coisa que muito me emocionou: não tem cheiro de Rio de Janeiro nem de São Paulo. Tem cheiro de Acre! A paginação, a leitura, tudo tem a cara do Acre! Como é que vocês conseguiram? Um apelo: aprofundem mais isto. Quero receber o número 4 impresso em folha de seringueira”.
Além da cartinha amável, Henfil desenhou a “graúna” (um dos seus mais ricos personagens) anunciando o Varadouro para os leitores do Pasquim, com endereço e tudo. Uma consagração para o jornal.
Coincidência ou não, o cartunista sintonizava as preocupações dos jovens universitários que disputavam a eleição para o DCE da Universidade Federal do Acre (Ufac) e davam à sua chapa o nome de “seringueira”. A chapa venceu provocando uma reviravolta nas discussões internas.
O Varadouro registrou na edição número 5 (disponibilizada em PDF neste site), numa longa entrevista, as idéias de Valdir Nicácio, Álvaro, Eurenice e Walterles, componentes da nova diretoria do DCE que festejaram o fato de poderem levar a palavra “seringueira” para dentro da Universidade.
Na época, é bom lembrar, a Ufac vivia submetida ao mau humor e às suspeitas dos militares de Brasília: os professores que contratava passavam antes por uma triagem no Conselho de Segurança Nacional, enquanto o reitor Áulio Gélio, vez por outra, era sabatinado por coronéis do SNI (Serviço Nacional de Informações). Embora tenha sido ele próprio um aplicado defensor do regime militar.
Mesmo assim, a instituição era citada como instrumento de transformação da realidade acreana. Até que, em 1976, apareceu um professor da Paraíba dizendo que nem tanto. Oswaldo Sevá, contratado para planejar o departamento de Extensão Universitária diagnosticou com perspicácia que o estado de espírito da universidade era outro: “É tranqüila demais para a sociedade efervescente que a cerca”, observou.
Mas a Universidade começava a viver momentos intranqüilos. Promoveu eventos como o simpósio dos cem anos da migração nordestina, discutiu a economia da borracha, solidarizou-se com a luta dos seringueiros e índios contra a ocupação das terras por fazendeiros do centro-sul.
Também acolheu a discussão ambiental reconhecendo a liderança de Chico Mendes. É uma pena que, decorrido três décadas, parece ter encolhido e aproveitado pouco das teses e conclusões a que chegou no calor dos anos 70/80.
A edição 5 do Varadouro caminhou mais que as anteriores na direção recomendada por Henfil: tem cheiro e cor do Acre. A matéria “CAETÉ - onde se vive apenas 20 anos” é um exemplo. Produzida pelo Padre Heitor Turrini durante uma desobriga, tem a dimensão de um ensaio sociológico, um libelo que celebra o homem seringueiro enquanto denuncia o seu estado de abandono. Um texto desses não envelhece e deveria ser editado por alguma ONG ou pelo próprio governo.
Faz tempo, um punhado de pessoas que trabalham a comunicação sem enfiar o rabo num cofre procura uma linguagem adequada para tratar das questões acreanas junto aos principais interessados: ou seja, seringueiros, ribeirinhos, índios e seus descendentes que vivem na periferia das cidades. Em tempos de vemos, aqui e ali, a busca da linguagem que, como Henfil, pessoas de diferentes partes do planeta identificaram no Varadouro. O texto do Padre Heitor pode ser um caminho.
No Varadouro prevaleceu a linguagem do conflito em algumas ocasiões; a linguagem da indignação em outras; e, sobretudo a linguagem do compromisso com a cidadania e a ética, o respeito às etnias, a identidade verdadeira com o homem e o meio ambiente.
A matéria “Um Índio para Presidente”, que está na página 15 do encarte, seria ilustrativa dessa busca de linguagem se não estivesse truncada (as gráficas constituíam o maior calo da equipe do Varadouro). Ela coloca a problemática do índio acreano de forma original a partir de um desfile de 7 de setembro em Cruzeiro do Sul, onde um grupo de Poyanauas foi induzido a desfilar pela coordenação local do Projeto Rondon.
Nada mais humilhante. Os Índios desfilaram para os “caras-pálidas” num calor infernal, de pés descalços no asfalto quente, e sob vaias de pessoas que secularmente os descriminaram. Pode um repórter de verdade não escrever um texto indignado diante de uma cena dessas?
A indignação foi o gancho para divulgar o relatório da antropóloga Delvair Montagner Melatti sobre a história do povo Poyanaua na região. Por volta de 1908, eles eram mais de 800, habitando a área do seringal Barão do pioneiro Coronel Mâncio Lima. Consta que o Coronel “amansou” a maioria dos índios utilizando métodos condenáveis, mas antes de morrer procurou compensa-los: os Poyanaua são os atuais donos do Seringal Barão e têm o respeito dos herdeiros de Mâncio Lima.
Mas a história será sempre implacável com o coronel que, segundo relatos colhidos da época, pensou até em oferecer um índio de presente para o Presidente da República.
Na mesma edição o Varadouro abriu espaço para os depoimentos que algumas pessoas do Acre deram à CPI da Terra, montada no Congresso. O Bispo Dom Moacyr Grechi, o engenheiro agrônomo e professor universitário (hoje doutor em economia rural) José Fernandes do Rego e o Jornalista Elson Martins (este seu criado), levaram ao congresso denúncias e análises da situação das terras no Acre. O jornalista, bem no estilo do Varadouro, envolveu até um general do Exército nas denúncias.
Durante seu depoimento o jornalista exibiu para os deputados o filme “Nós e Eles”, produzido por Augusto Sevá (irmão de Oswaldo Sevá), que ao filmar os conflitos de terra no Acre acabou levando uma carreira dos jagunços na estrada de Sena Madureira, uma perseguição de veículos que só se vê no cinema americano. O cineasta foi salvo pela poeira da estrada (no verão), mas seu trabalho resultou num forte documento revelador dos conflitos fundiários dos anos setenta no Acre.
Na opinião dos editores, o Varadouro 5 foi dos mais densos e honestos, tanto pelas matérias sobre o rio Caeté e dos índios do seringal Barão, como pela entrevista e exploração de menores numa fabricação de tijolos e outra sobre a antiga Guarda Territorial. Para completar, na última página, o jornal iniciou um debate sobre a cultura acreana sob a batuta do professor, poeta e sociólogo Clodomir Monteiro, professor da UFAC.

Varadouro 6º

Prostituição e outros problemas
made in Acre
Por Elson Martins
Aleluia! Em dezembro de 1977, após uma agoniada perambulação por algumas capitais brasileiras, a equipe do Varadouro conseguiu trazer a impressão do jornal de volta a uma gráfica de Rio Branco. O empresário e político José Abrantes, dono da gráfica “Dois Oceanos”, abriu as portas de sua oficina alimentando entre nós, durante algum tempo, a ilusão de que faríamos um grande projeto editorial.
Houve momento de euforia na redação com a notícia de que a impressão sairia quase de graça. Podíamos acompanhar a edição de perto e, com jeito, introduzir pelo menos mais uma cor na capa, o que dependia apenas do relacionamento com o chefe da oficina e seus auxiliares, o que não representava problema pois a turma do Vara era engajada, solidária e disposta a meter a mão na massa.
O português José Abrantes - quem não o conheceu? - foi sempre muito influente no Acre, até cansar de tudo no inicio dos anos noventa, vender seus bens e partir com uma mala de documentos sigilosos para viver feliz na sua Portugal.
Eu o conheço desde os anos cinqüenta (1958), quando apareceu em Rio Branco como representante de uma firma de remédios do sul do país. A lembrança dessa época é vaga, mas consigo localizá-lo nas imediações do Bar Municipal, restaurado há alguns anos na Praça Cívica. Eu cursava a primeira série do colegial (científico), no Colégio Acreano, junto com Edílson Martins (hoje jornalista, escritor e produtor de documentários para a TV no Rio de Janeiro) e o Odacir Soares (que também fez jornalismo antes de tornar-se deputado e senador por Rondônia). Nós três chegamos a produzir o jornalzinho estudantil “O Selecionado”, bastante atrevido, que se não me engano, chegou a comentar a presença do “português” na praça.
O Abrantes representou uma ameaça às nossas fantasias românticas com a coleguinha de classe Maria Rita Alencar Araripe, - bela, inteligente e rica. Leitor assíduo do poeta Fernando Pessoa – cujos versos e sabe lá quantas coisas bonitas mais sabia de cor – o português era também muito elegante e andou cortejando nossa musa, embora tenha casado depois com a irmã, Maria Amélia.
Passei 17 anos fora do Acre e ao retornar, em 1975, encontrei-o em Rio Branco com enormes poderes. Além da gráfica, possuía uma transportadora e um supermercado que somavam respeitável patrimônio. E construíra a fama de maior articulador político do PMDB. Sustentava ainda, com invejável astúcia, o perfil de um homem de esquerda comprometido com causas populares. Por isso invadimos sua gráfica com o Varadouro.
Mas, meus caros leitores, foi exatamente aí que iniciamos a verdadeira odisséia do jornal das selvas. E explico por quê: a “Dois Oceanos” era uma gráfica razoavelmente bem montada para produzir pequenos impressos, mas precaríssima para imprimir um jornal, mesmo em tamanho tablóide como o nosso.
Em 1977, os extraordinários computadores não haviam chegado ao Acre e a novidade em composição de textos era a Compose IBM, algo melhor que a máquina de escrever elétrica com a qual também não contávamos. Tivemos que recorrer às velhas linotipos para transformar as laudas datilografadas em barrinhas de chumbo, arrumá-las em colunas e então tirar as provas para colar nas páginas que formariam o jornal. Um trabalho artesanal que exigia capricho e paciência.
O passo seguinte era fotolitar as páginas, gravar em chapas de zinco pré-sensibilizadas e partir para a impressão em off-set. Com as chapas prontas para imprimir, porém, nos colocávamos diante de um obstáculo bem maior: a impressora do Abrantes só imprimia uma página por vez, o que exigiu uma ampla reunião da equipe do Varadouro com leitores e simpatizantes para responder à pergunta: “vamos encarar”?
Imaginem se sujeitos como o Abrahim Farhat, o Alberto Furtado e o antropólogo Terri Aquino, que perambulava pela cidade com metade da tribo dos Kaxinauás do Jordão iam responder “não”! A resposta foi: “mãos à obra” e a imediata convocação dos dobradores de papel.
O procedimento se estendeu por várias edições. Primeiro a gráfica cortava o papel no tamanho de uma folha do jornal aberta, correspondendo a um caderno de quatro páginas (duas de cada lado) para a tiragem de 5 mil exemplares. Ou seja, a gráfica preparava 25 mil folhas com uma folga para as falhas de impressão. Ao mesmo tempo e conforme o combinado, preparávamos nossa equipe de dobradores aliciando-a com cafezinho, guaraná ou refresco e pão com manteiga.
Na primeira dobração, encarávamos 25 mil folhas de papel em branco. Com a ajuda do Abrahim apanhávamos o material na gráfica e após dobrar folha por folha ao meio, com precisão, o devolvíamos para a impressão das duas primeiras páginas. Em seguida e ao sinal da gráfica, íamos buscar a mesma pilha de papel para desdobrar as folhas, agora com o cuidado de não mancha-las com a tinta da primeira impressão, devolvendo o material com a parte branca para fora, para a segunda rodada de impressão. O procedimento repetia-se para cada um dos 5 cadernos que completavam as 20 páginas do Varadouro com tiragem de 5 mil exemplares.
Fazendo as contas, a equipe de dobradores formada por jornalistas, moradores da periferia (das associações de bairros), universitários, boêmios e índios, passavam uma semana para dobrar e desdobrar, ao todo, 250 mil folhas, para ter a satisfação de ver o Varadouro nas ruas.
Ninguém recebia um único tostão pela trabalheira, mas todos achavam que valia a pena participar da tarefa. Não foi à toa, portanto, que o Varadouro se impôs com tanto respeito, como experiência honesta e engajada, um registro necessário e fiel de tempos heróicos do jornalismo acreano.
A primeira edição produzida nessas condições - inimagináveis nos dias de hoje - foi a de número 6. Esta é, portanto, uma edição histórica, como outras que se seguiram graças a obstinação, a coragem e o amor à terra das pessoas que participaram de sua elaboração. Para o desembargador Arquilau de Castro Melo, deve ter um significado especial. Repórter do Varadouro à época, foi ele quem fotografou (com todo respeito) a moça da capa, uma bela morena acreana nascida nos seringais e que, sem alternativa, sobrevivia nos prostíbulos do bairro do Papôco. Arquilau escreveu também o texto da matéria que fez a edição esgotar em tempo recorde.
A foto da morena com um crucifixo pendendo sobre os seios completamente nus gerou uma pequena discussão: devíamos colocar ou não uma tarja escondendo os seios? A maioria entendeu que sim, não por moralismo, - já que não existia nada de imoral na foto – mas porque a Polícia Federal andava em nosso encalço procurando um motivo qualquer para impedir a circulação do jornal. Coube a mim, na condição de arte-finalista colocar a tarja com a expressão “Prostituição – Acre”.
Outros títulos abordados na edição foram também carimbados: “Mulheres sem charme”, “Ecologia” e “À margem da vida”. O recurso criou um aspecto de cais de porto com produtos made in Acre para a exportação, formando um conjunto expressivo e denunciador. O resultado foi uma bela capa para um ótimo jornal.
(texto produzido originalmente em fevereiro de 1998, com pequena atualização)

Varadouro 7 º fez o Governador chorar

Varadouro fez o Governador chorar
Por Elson Martins
Existe em Rio Branco algum cidadão disposto a ceder de graça (ou quase), um imóvel no centro para a redação de um jornal que se disponha enfrentar os poderosos, estejam eles no poder ou fora do poder? De preferência, alguém que conheça e assuma a linha editorial do jornal, não interfira nela e só apareça na redação para perguntar se o pessoal quer um cafezinho quente, uma tapioca ou um suco de cupuaçu?
Desculpem a impertinência da pergunta! É que ao iniciar o texto de apresentação do Varadouro nº 7 que estamos disponibilizando a partir de hoje neste site, numa versão em PDF, me veio a lembrança do seu Elizeu, pai da Eurenice (atualmente professora da Universidade Federal do Acre), que em 1977 resolveu o problema de espaço para a redação do jornal. Ocupamos por mais de dois anos, pagando aluguel simbólico (mesmo assim com atraso), um prédio que ele acabara de construir na Travessa Epaminondas Martins, 141, no bairro do Bosque, mantendo com os locadores um relacionamento incomum.
Ex-guarda territorial aposentado, Elizeu vivia de uma minguada renda, que mal dava pra cobrir as despesas familiares. Entretanto, deixou de alugar o imóvel para depósito ou escritório de uma firma rica, preferindo confiá-lo a um bando de pés rapados (desculpem o exagero, mas não já chamaram os jornalistas de mendigos de gravata?). A casa do nosso amigo fica de frente para a Avenida Getulio Vargas, no topo da ladeira da maternidade, e o prédio que ocupamos, nos fundos do quintal com entrada pela Epaminondas Martins. Até hoje, 30 anos após, parece não ter havido grandes mudanças por lá.
Do tipo falastrão e presepeiro, Elizeu gostava de entrar na redação varando o quintal pelos fundos, com alguma oferenda: café quentinho com pão e manteiga, tapioca ou pamonha, com o que adquiria o direito de interromper nosso trabalho e contar prosas nem sempre apreciáveis. As guloseimas, principalmente quando o Alberto furtado demorava-se na redação conferindo os jornais vendidos em banca, acabavam num relâmpago. Pior ainda quando a visita coincidia com a dobragem do jornal que reunia respeitável contingente. Se o aluguel estava atrasado, Elizeu prolongava a conversa acrescentando alguma historinha engraçada sobre suas dificuldades financeiras. Mas não perdíamos o rebolado, convencidos de que ele apenas brincava com nosso constrangimento.
Decidi lembrar o relacionamento com o simpático locador porque se trata de mais um elemento diferenciador do jornalismo que praticávamos no fim dos anos setentas e começo dos oitentas. E fico me perguntando por que essa coisa tão bonita se perdeu! Enfrentamos, em 1998, enorme dificuldade para circular com O Acre, herdeiro do Varadouro, entre outras coisas porque não contamos com os Elizeu, os Arquilau, os Alberto Furtado, os Abrahim Farhat, os Terri Aquino e tantos outros que encararam com entusiasmo e seriedade a tarefa de produzir um bom jornal em décadas passadas.
A carência a que me refiro se estende aos repórteres, mesmo os que se lançam na condição de estagiários e deveriam aproveitar a chance de se profissionalizar. Eles trabalham sem o menor tesão as matérias jornalísticas, como se não fossem fisgados, ainda, pelo amor à profissão. Por certo, não acreditam que um jornalzinho alternativo possa contribuir para melhorar as condições de vida na sociedade da qual fazem parte. Talvez tenham razão, mas quero relatar aos jovens destes novos e confusos tempos da imprensa escrita, um fato que ilustra o que um pequeno jornal como Varadouro, quando feito com alma, verdade e coragem é capaz de provocar.
Na edição agora disponibilizada, colocamos na capa a foto de uma mulher seringueira com a filha no colo, aguardando atendimento médico num posto de saúde em Sena Madureira; e logo abaixo, o título arrasador com pincel atômico: “Nóis queria um Governador que olhasse pra nossa miséria”, frase colhida numa enquête feita pelo jornal. A foto lembrava as vitimas da fome africana, realmente chocante!
Na época (anos setentas) os governadores eram nomeados pelo Presidente da República a partir de uma lista tríplice submetida ao SNI (Serviço Nacional de Informação) em Brasília. O escolhido agia como delegado do poder central e do regime militar. O antecessor podia acompanhar a escolha e dar alguns palpites para a nomeação, geralmente beneficiando seu grupo político.
No dia em o que Varadouro n.7 circulou, em fevereiro de 1978, o Governador Geraldo Mesquita, hoje afastado da política, havia convocado a imprensa para anunciar um acontecimento importante. Os jornalistas estavam postados em volta da grande mesa do salão nobre do Palácio Rio Branco quando um assessor apareceu com um exemplar do jornal para o governador. Mesquita interrompeu sua fala, olhou bem a capa, leu em voz alta a manchete e, surpreendentemente, baixou a cabeça e chorou.
Mesquita, é preciso que se diga, não foi propriamente um governador da ditadura militar de 1964. No passado ele participou da criação do Partido Comunista Brasileiro do Acre e sua origem é de homem do interior (Feijó). Portanto ele foi um político com alma e sentimento. Mas o jornal o ajudou enxergar com clareza o conflito que se estabelecera entre seringueiros e fazendeiros do Sul, Leste e Centro-Oeste na época (75/79). Ele acabou assumindo papel histórico na defesa das tradições acreanas.
Na mesma edição o sociólogo Cesare G. Galvan, professor de pós-graduação de Economia no Recife fez apurada análise do Varadouro mostrando seus defeitos e virtudes. O professor visitou o Acre naqueles tempos turbulentos, encontrando no jornal um denso conteúdo que colocou a realidade acreana em debate. As teses de mestrado e publicações especializadas que recorreram e ainda recorrem ao jornal, como fontes de pesquisas, corroboram sua importância.
E já que iniciei esta apresentação com uma pergunta, posso terminar com outra: - o Acre que sofre hoje, como outras capitais em crescimento, uma realidade de violência, narcotráfico, fome e desemprego, acolheria a produção de um jornal parecido com o Varadouro, com repórteres, leitores, políticos, empresários, índios, associações e sindicatos preocupados em encontrar solução para a região?
(texto produzido e publicado, originalmente, em maio de 1998 no jornal o Acre

Varadouro 8 e a questão ambiental*

Varadouro e a questão ambiental*
Pedro Vicente Costa Sobrinho
Para o jornal Varadouro, a questão ambiental sempre esteve intimamente relacionada à luta pela terra no Acre. Ao definir sua linha editorial pela defesa do índio, do posseiro e do seringueiro, o jornal assumiu a luta pela reforma agrária para esses personagens, ou seja: para o Índio – a demarcação de suas reservas, garantindo-lhes o espaço adequado onde pudesse assegurar sua sobrevivência, de conformidade com os valores culturais de cada nação; para o seringueiro – uma área que regularizasse sua posse, mantendo a floresta com suas estradas de seringa e árvores castanheiras, garantindo sua existência de pequeno agricultor e, sobretudo de extrator; para o posseiro ou colono – lotes de terra de acordo com o módulo definido para a Amazônia, além dos projetos de assentamentos dirigidos de iniciativa do INCRA e do governo estadual.
A grande propriedade deveria sofrer restrições adequando o tamanho dos projetos agropastorais às condições ambientais. A defesa da floresta amazônica e dos seus recursos naturais sempre foi colocada de modo claro e indiscutível pelos que faziam o jornal, apesar de ainda não terem muita ou quase nenhuma clareza quanta às alternativas de desenvolvimento para a região, que viesse compatibilizar crescimento econômico, melhoria da qualidade de vida e preservação do meio ambiente.
Varadouro motivou, em suas páginas, a discussão sobre a necessidade de se formular esse modelo de desenvolvimento para o Acre. Várias entrevistas foram feitas com economistas, sociólogos, historiadores e outros técnicos sobre o assunto. Do conjunto de técnicos entrevistados: do diretor do INPA (Instituto de Pesquisas da Amazônia) Dr. Warwick Keer; do economista Mário Lima; do pesquisador Amílcar Japiassu e de uma mesa-redonda com técnicos de formação diversa reproduzida nas paginas do jornal.
Varadouro abriu suas páginas para a discussão, contudo, a redação só estava disposta a aceitar e difundir uma alternativa que viesse contemplar os seus atores preferenciais: o Índio, o posseiro, o seringueiro, inseridos numa realidade de convívio harmonioso com o meio ambiente.
Varadouro nº. 1, ano I, maio de 1977 (p.5), publicou matéria discutindo o assunto e assumindo posição. O jornal chamou a atenção para o fato de que o problema da devastação não foi um assunto ainda posto em discussão pelos acreanos, mas já era hora de se preocupar com alguns dados apontados pelo cientista Warwick Keer: 1974, o desmatamento foi inferior a 1%; 1975, 1,8 por cento da área de cobertura florestal, quase o dobro; 1976, 3,5 por cento. Se esse ritmo fosse mantido, em 33 anos todas as reservas florestais do Acre estariam destruídas. O jornal observou que as densas nuvens de fumaça que vinham cobrindo o Acre, nos meses de julho e agosto, indicavam algo nada auspicioso. O jornal até aquele momento, não tinha um bom olhar sobre a questão ecológica por considerar um certo diletantismo ou modismo no trato do assunto, mas a conferência do diretor do INPA, Warwick Keer, foi convincente, principalmente quando disse: “Não devemos permitir que gaúchos, paulistas e outros venham acabar com a floresta da Amazônia. Eles chegam aqui, criam o boi, mandam a carne para a Alemanha e outros paises: o dinheiro fica por lá e o homem da Amazônia fica apenas com o ‘berro do boi’”.
Varadouro fez sua leitura e observou: “Em outras palavras, o cientista condena aqueles que preconizam e defendem uma política de ocupação da Amazônia baseada apenas em projetos agropecuários, na bovinização, e em vista das exportações, sem levar em conta o desenvolvimento harmônico e em proveito da população local”. As medidas apontadas pelo cientista foram reproduzidas no jornal, que agregou: “Todas essas medidas, entretanto, serão inócuas se não houver uma reformulação na política de ocupação da Amazônia. Do contrário, o homem da Amazônia, incluindo o acreano, ficará mesmo apenas com o ‘berro do boi’”. Essa primeira matéria marcou a adesão da equipe do jornal à questão ecológica, que passou então a ser abordada como uma problemática indissociável da questão da terra no Acre.
Varadouro nº. 3, ano I, agosto de 1977 (p.19) publicou nota, na qual destacou idéias expressas pelo cientista Warwick Keer, que, com certeza, foram incorporadas pela equipa de redação: a questão do desmatamento e suas implicações na erosão dos solos Amazônicos; a ocupação por fazendas com limites de 300 hectares, por não se conhecer ainda o impacto ambiental e evitar com isso as grandes destruições.
No Varadouro nº. 4, ano I, setembro de 1977, duas matérias chamaram atenção: a entrevista com o economista Mário Lima e a resenha que foi feita pelo jornal da conferencia do historiador Arthur César Ferreira Reis. Na entrevista (p. 3-4), Mário Lima defendeu um modelo de desenvolvimento que preservasse e promovesse o adensamento da atividade extrativista da borracha, introduzisse o seringal de cultivo e a diversificação da produção agrícola. A reforma agrária foi colocada como indispensável. O jornal pinçou uma posição do entrevistado com relação à pecuária: “a pecuária não é a solução para a economia da região; ecologicamente é uma desgraça, e socialmente, um crime”.
Da conversa com Ferreira Reis (p.14), o jornal selecionou uma declaração contra a ocupação da Amazônia pela pecuária: “A pecuária é uma forma de ocupação. Mas deve ser localizada em regiões onde já existem os chamados campos naturais. Destruir a natureza só para botar o gado, isso eu acho errado. Há espaços imensos que não são florestas; (...) Esses espaços é que devem ser ocupados pela pecuária e não onde há florestas, como está acontecendo indiscriminadamente em quase toda a Amazônia”.
Varadouro nº6, ano I, dezembro de 77 (p.11-14), reservou quatro páginas dessa edição para o tema ambiental. Nesse espaço o jornal publicou a entrevista com o cientista Warwick Keer e um artigo de Clodovis Boff, no qual relata suas observações sobre o seringueiro e o seu cotidiano na floresta. Na entrevista, Dr Keer foi bastante didático, explicando de modo simples os fundamentos da ecologia. Sugeriu que fosse feito levantamento sobre o saber popular e o aproveitamento do conhecimento do Índio sobre a floresta: fauna e flora. O desenvolvimento auto-sustentável, tendo como base o potencial de recursos naturais existentes na região, foi a tese defendida. O relato de Boff procurou flagrar o seringueiro no seu dia-a-dia e revelar a rede de exploração que o cercara por toda a sua história de vida, concluindo que: “O seringueiro não precisa de ajuda, mas de justiça e principalmente de libertação”, pois ele “só é ignorante da cultura do outro, do letrado, do homem da cidade, ele sabe mais do que ninguém o que é importante saber para se virar dentro do seu universo, do seu mundo vital”.
Varadouro nº14, ano II, março de 1979 (p.5-6), publicou matéria com o titulo: “Depois da borracha, do boi... Agora, a madeira (em risco)”. O jornal noticiou sobre a proposta formulada pelo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), para que se façam contratos de risco para a exploração do potencial madeireiro da Amazônia. Para o Acre ficou reservada na proposta uma área de 6 milhões e 292 mil hectares. O jornal analisou e expôs os danos ecológicos e sociais que o desmatamento motivado pela exploração madeireira iria acarretar à região. Juntando isso aos danos já causados pela pecuária, nada sobraria para os acreanos mais pobres: Índios, posseiros e seringueiros. Varadouro publicou em fundo preto certas palavras de denúncia contra a iniciativa do governo: “Contratos de risco. Uma imoralidade! Sou Contra! Plano sinistro...”, e colheu vários depoimentos de operários, estudantes, intelectuais, presidente da OAB do Acre e do Bispo Dom Moacyr Grechi. Do depoimento do bispo cabe destacar alguns trechos:
Quem vive e trabalha na Amazônia acaba aprendendo, no decorrer dos anos, que é impossível defender o homem sem defender a preservação de seu meio ambiente: suas florestas, seus rios, suas riquezas minerais. A terra e o que ela contém é tudo para o homem da Amazônia, é sua própria vida, particularmente para o Índio, o seringueiro, para o posseiro, para o pequeno agricultor (...) Mais recentemente o plano foi de transformar o Acre e outros estados da Amazônia numa grande fazenda, com serias conseqüências para o homem da região (...). Agora, por último surge o sinistro plano de contratos de risco (...). Se for concretizado é o “golpe mortal” a milhares de Índios e seringueiros... Os cientistas (ecólogos, agrônomos, economistas) e representantes de várias entidades nacionais comprometidas com as causas populares, levantaram suas vozes para protestar e denunciar mais esta farsa.
Os outros depoimentos seguem o mesmo diapasão. No Acre, a denuncia repercutiu amplamente, passando a ser discutida por sindicatos, CEBs, escolas, Universidades etc.

Varadouro nº. 15, ano II, junho de 1979 (p. 17-18), publicou artigo intitulado: “Cuidado acreanos!” O jornal analisa os mapas do projeot RADAM e localiza para os leitores a chamada área 1, passível de contrato de risco. Nessa área havia concentração de madeira de lei como: cedro, peroba, aguano etc., afetando sete grupos indígenas com reservas delimitadas na área: Kaxinauá, Kulina, Kampa, Katuquina, Jaminauá e Maxineri, e os seus projetos de desenvolvimento comunitários. E também alguns milhares de seringueiros, castanheiros e posseiros que resistiram as investidas de grileiros e fazendeiros e se tornaram produtores autônomos de borracha, castanha e lavoura. Nos 6 milhões e 292 mil hectares da área 1, localizavam-se várias cabeceiras de rios importantes para o regime de águas do Acre: Vales do Iaco, Macauã, Alto Purus, Envira e Acre. A catástrofe ecológica advinda do desmatamento dessa área era mais do que evidente, só não sendo percebida pela SUDAM e seus ideólogos: Clara Pandolfo e F. Schimthusen.
O jornal publicou um documento do Movimento de Defesa do Meio Ambiente do Acre, com o titulo: “Carta aberta em defesa do Acre e da Amazônia”. O documento foi redigido após 40 dias de debates, conferências, palestras, mesas redondas e até as apresentações teatrais em escolas, centros comunitários, universidade etc., que mobilizaram alguns milhares de pessoas para o problema que era de crucial importância para a população acreana. A carta discorria sobre a crueldade contra a natureza e as populações da floresta, causada pela recente pecuarização do Acre. Dizia o documento: “Aliás, a leviandade dos especuladores e, sobretudo um principio de resistência de classes trabalhadoras, organizada em seus sindicatos, decretaram o fracasso do modelo agropecuário”. Agora era um novo milagre: “Novamente os porta-vozes do governo e dos trustes internacionais se esforçam em apontar as ‘benesses’ do novo projeto. Entretanto, quanto mais explicam, mais se complicam com a opinião pública”.
Varadouro nº16, ano II, outubro de 1979 (p.11), publicou artigo bastante especializado analisando o material produzido pelo grupo de trabalho encarregado de traçar linhas mestras para uma política florestal. O artigo incorporou ao seu texto as discussões sobre o assunto ocorridas nas reuniões anual da SBPC. Para o Acre, permaneceu a proposta de uma área de floresta nacional de rendimento, entre os municípios de Feijó e Cruzeiro do Sul. O artigo adverte que a ação dos madeireiros não ficou definida como restrita a tais áreas de floresta, podendo atuar em outras sem os incentivos fiscais. Concluiu o jornal: “O certo é que agora, depois do boi, será a vez das motosseras”.
Varadouro nº19, ano II, maio de 1980 (p.22-27), publicou o documento do Movimento de Defesa do Meio ambiente do Acre, analisando o chamado pacote florestal. O movimento criticava e denunciava as varias alterações perpetradas contra o relatório apresentado pelos grupos de trabalho, quase que desfigurando o documento inicial. O projeto a ser enviado ao congresso Nacional era uma versão dos Ministérios da Agricultura e Interior. Para o Acre, a área considerada Floresta Nacional foi reduzida para 2 milhões e 190 mil hectares, mesmo assim cobrindo um espaço onde residiam milhares de Índios, seringueiros e posseiros. O pacote florestal supostamente assegurava a continuidade das atividades dos residentes ou a indenização com a prova de legitima propriedade. Concluiu o documento: “Como se vê, o pacote Florestal do Governo é duvidoso, a não ser quanto a sua intenção de aprofundar e legitimar a depredação dos recursos naturais e a exploração dos trabalhadores da região, em beneficio exclusivo do capital estrangeiro e dos grupos a ele associados. Ainda nessa edição, foi noticiada a realização de Missa Ecológica celebrada pelo bispo Dom Moacyr Grechi, que marcou a abertura da Campanha Nacional em Defesa da Amazônia. O Movimento de Defesa do Meio Ambiente do Acre distribuiu um documento denunciando as novas políticas do governo militar para a Amazônia, afetando em particular o Acre.
Varadouro nº. 22, ano IV, junho/julho de 1981 (p. 5-6), publicou matéria chamando a atenção para o consumo exagerado de enlatados no Acre. A preocupação central do repórter foi com a divulgação do movimento naturalista, uma das variantes do movimento ecológico. No entanto, uma denuncia foi feita: o uso indiscriminado de herbicidas Tordon, produto derivado do malsinado “agente laranja”. Esse produto vinha sendo largamente utilizado para matar ervas daninhas nos campos para pasto. As conseqüências do uso desse veneno foram verificadas anos depois no próprio rebanho bovino. A introdução do naturalismo dentro da linha editorial do jornal de defesa do meio ambiente, provavelmente, foi conseqüência da mudança na equipe de redação, pois novos colaboradores foram nela integrados.
* Trecho do livro “Comunicação Alternativa e movimentos sociais na Amazônia Ocidental”, tese de doutorado de Pedro Vicente apresentada à USP, em São Paulo, e publicada pela Editora Universitária/UFPB, 2001.

Varadouro 9: alguma contradição?

Varadouro 9: alguma contradição?
Elson Martins
Já imaginou o Varadouro, integrante da imprensa alternativa que combatia, entre outros males nacionais, a ditadura militar instituída em 1964, de repente aparecer apoiando um governador nomeado por essa ditadura? Pois a edição número 9, que circulou em maio de 1978, causou essa impressão e gerou discussão ideológica na redação antes de ir para as ruas. A matéria suspeita, publicada na página 3, recebeu o título: “O exemplo da sucessão e uma promessa que pode ser boa”, e saiu acompanhada de uma entrevista com o governador “biônico” Joaquim Macedo, nomeado pelo Presidente Ernesto Geisel para o período 1979/1981.
Já naquela época, o Acre atraia pesquisadores e estudantes do sul do país curiosos em conhecer e entender a forte mobilização popular de seringueiros, ribeirinhos e índios contra o desmatamento da floresta. A Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) tinha criado oito sindicatos na região, com cerca de 30 mil associados, e a luta desse povo não tinha similar no país, até porque o regime militar forçara a desmobilização do sindicalismo e das forças políticas de contestação ao governo. Como porta-voz desses trabalhadores da floresta, o Varadouro tinha que explicar, no mínimo, porque admitia um governo “nomeado”, quando o correto era exigir sua escolha em eleições diretas.
Durante a reunião na redação veio a explicação nestes termos: “aqui é aqui”. Traduzindo: O ex-gerente de seringal Joaquim Macedo (falecido em 2006) era acreano de Brasiléia, um homem simples, com ficha política limpa. Filiado à Arena, partido criado para dar sustentação aos militares no poder, estava sendo indicado pelo governador Geraldo Mesquita (1974/1978), do mesmo partido, mas que fez clara opção pelo extrativismo opondo-se a transformação do Acre em pastos para o boi. Embora fiel ao governo federal do amigo e protetor Geisel, Mesquita tomou partido dos seringueiros batendo de frente com os fazendeiros e especuladores de terras.
Joaquim Macedo, portanto, poderia dar continuidade ao governo de Mesquita, bem ou mal, com raízes fincadas no Acre, ao contrário do primeiro governador nomeado pela ditadura, Francisco Wanderley Dantas, que escancarou as portas do Acre para a boiada entrar. Além disso, Macedo tinha como assessor muito próximo, uma espécie de anjo da guarda, o professor Elias Mansour, acusado de ser comunista pelo então Ministro do Exército, general Sylvio Frota. E quais eram as outras opções que constavam de uma lista levada ao Presidente em Brasília?
A lista chegou a contar com nove nomes referendados na capital federal. Entre eles, o funcionário da Eletroacre, Pedro Felix, os deputados estaduais Carlos Simão e Wildy Vianna, e o coronel da reserva do Exército, Natalino da Silveira Brito, acreano de Xapuri que, por ser militar, se sentia ungido. Morando no Rio de Janeiro, o coronel passou a visitar Rio Branco de jatinho especial para anunciar a construção da Hidrelétrica de Ituxy, na região de Boca do Acre.
O texto da Varadouro diz sobre o candidato: “Ainda nem se falava em sucessão, federal ou estadual, em 1976, mas Natalino Brito já era convidado para almoços e jantares especiais em residências da capital que paparicavam o filho arredio: “Ele será governador, tem toda a pinta; Eu acho que o Mesquita nem vai terminar o mandato, e Natalino entra já como interventor; ´É militar, não tem vinculo nenhum com a política local”. O jornal fez um perfil nada favorável de cada candidato, exceto Macedo, e os definiu como “melancólicas figuras adeptas da intervenção e da deduragem”.
A edição número 9 resultou muito expressiva. Começa com a seção de cartas, que abre com um texto de Vladimir Pomar, preso político que leu o jornal no Presídio Romão Gomes, mostrado a ele pelo também preso Marco Antônio Coelho. Pomar se diz surpreso com a edição número 7 e declara: “O estilo reportagem-documentário que vocês imprimiram ao jornal confere a ele uma vivacidade que muitos do Sul perderam”.
Também merecem destaque as matérias “Índio sabe falar, sim!” (páginas 5, 6 e 7), “Um boi no trono de Galvez (páginas 9,10, 11 e 12) e “Sem terra, sem estradas...” (páginas 15, 16 e 17).  Bom proveito!

Varadouro: neste número 10

Varadouro: neste número 10
Por Elson Martins
O Editorial da edição 10, que marca um ano de existência do jornal, comemora o feito nestes termos:
“Permitam-me uma pequena digressão: há um ano, quando apareceu o primeiro número de Varadouro, alguns amigos, embora bondosamente apoiassem a iniciativa de se fazer um jornal independente e democrático para o Acre e sua gente, lá adiante, na outra esquina, sacudiam a cabeça para dizer que não passaríamos do número três. De fato, por pouco não ficamos no número dois. Simplesmente, faltou-nos o principal: a gráfica para rodar o jornal! Como, porém, já tínhamos cometido a extravagância de “importar” 300 quilos de chumbo do Rio de Janeiro, poderíamos cometer outra: por que não imprimir o jornal em São Paulo?
“Embora isso representasse uma sangria em nossas minguadas finanças, imprimimos o três, quatro e cinco em São Paulo. Posteriormente, as condições se alteraram e tiramos os demais por aqui, com a colaboração do nosso ágil linotipista Nilder Mota e, sobretudo, da Artes Gráficas Dois Oceanos. Desse modo, aos trancos, às vezes com atrasos na periodicidade, chegamos a um ano de Varadouro, uma pequena história que estamos contando a partir da página 11”..
A história começa na página 11 com uma apresentação do “pessoal” que fazia o jornal, com destaque para o “seu” Raimundo, um velho seringueiro que o estudante de direito Arquilau de Castro Melo (hoje desembargador) levou para ser vigia do prédio, mas que acabou se revelando imbatível na venda de exemplares no “pregão”. Nas páginas seguintes (12 e 13), publicamos a opinião dos leitores locais e reproduzimos a acolhida que o Vara teve na mídia nacional.  Jornal de Brasília, Pasquim, Movimento, Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo, Boletim da ABI e o Guaporé, entre outros, massagearam nosso ego pra valer.
Celso Araújo, que escrevia uma seção de cultura no Jornal de Brasília, fez um longo comentário e o encerra desta maneira: “ Pois o ‘jornal das selvas’ vem com uma intenção parecida e já está indo corajosamente, através da população acreana, com um trabalho lúcido e quase didático. Uma linguagem simples e acessível à população local, porém corajosa e educativa”.
Entre os comentários locais não teve apenas elogio: Um soldado da PM que, obviamente, pediu para não ser identificado, disse que o jornal tinha um “pequeno defeito: faz críticas muito severas, duras até”. Bom, ele foi o único a estranhar a linha editorial do jornal; outros 35 depoimentos a aplaudem, ainda que tivéssemos orientado nossos repórteres para equilibrar a enquête.
A edição circulou em junho de 1978, mas o tema de capa tinha cara de 1º. de Maio: “Trabalhadores: se a gente se unir numa boca só...”. Dá para perceber que houve atraso de um mês em sua preparação. Nada demais! Naqueles tempos os trabalhadores de diferentes categorias viviam mobilizados o tempo todo, não apenas para comemorar uma data transformada em feriado. O jornal abriu espaço para todo mundo falar (numa boca só...): trabalhador rural, lavadeira, empregada doméstica, estivador e professora -todos comiam o pão que o diabo amassava.
Finalmente, na contracapa um seringueiro de Tarauacá conta como sua família foi expulsa do seringal Araripe pelo projeto agropecuário Cinco Estrelas. Título da matéria: “Como expulsar seringueiros com incentivos da Sudam”. O vilão da história é o capataz Gil Meireles, a quem o seringueiro Francisco Lopes dos Santos, uma das vítimas,  descreveu assim:
“Ele era paparicado pelo prefeito, reverenciado pelo juiz de direito e respeitado pelo delegado de polícia. Gil falava aos seringueiros olhando por cima, as pernas entreabertas, a mão no coldre de um 45, como nos filmes de mocinho”.

Varadouro 11: astúcia contra ratos

Varadouro 11: astúcia contra ratos
Por Elson Martins
Na edição número 10, disponibilizada no site da BFMS mês passado, o Varadouro denuncia os métodos que a Agropecuária Cinco Estrelas S.A. empregou para expulsar as famílias do seringal Araripe, no município de Tarauacá, em meados dos anos setenta. O jornal entrevistou  na edição seguinte (11) o jovem seringueiro Francisco Lopes dos Santos, uma das vítimas, que fez um relato dramático da situação.
Francisco e sua família (esposa, pai e irmãos) foram os últimos a sair do seringal, tocados pelo administrador da empresa, Gil Meirelles, que gozava de poder e prestígio junto às autoridades municipais. Durante a entrevista, Francisco falou com o repórter como se estivesse diante de seu algoz:
- “Eu não sou covarde que nem tu (Gil), não. Se eu fosse covarde não estaria sofrendo no seringal Araripe. Tu vê que são quatro anos que eu sofro a maior necessidade, porque fiquei resistindo com a minha família, na minha colocação. Eu não sou menino não. Eu nasci e me criei cortando seringa. Eu já fui até “tuxaua” da seringa no tempo do sr. Olavo Torres de Figueiredo. Tu procura saber com ele, Gil: eu sou analfabeto, não sei nem assinar o meu nome, mas não sou homem de mentira não. Eu sei contar o que é passado. Eu sou um cidadão da seringa”.
A matéria com Francisco circulou em agosto de 1978, com o titulo “O diabo pra quem merecer”, uma expressão que ele utilizou em seu desabafo. Ocupou duas página (18 e 19), com amplo levantamento das arbitrariedades cometidas pela Cinco Estrelas, contra os seringueiros tarauacaenses. Os fazendeiros agressores contavam no estado todo com os prefeitos, autoridades de segurança e membros da justiça como aliados.
Apesar da importância e do tamanho da matéria sobre a Cinco Estrelas, ela não foi destaque de capa. Outros assuntos foram escolhidos para mostrar a efervescência social e política que sacudia o Acre de então. Tinha o movimento das lavadeiras nascido dentro da redação do jornal, e a reorganização dos estivadores. Tinha a presença dos índios fazendo denúncias e determinados a recuperar suas aldeias. E tinha a vigilância de sempre, do jornal, em cima das atividades policiais civis e militares.
Um tema que quase ocupa quatro ou seis páginas foi a dos ratos que ameaçavam Rio Branco, sobretudo a periferia da cidade. A repórter colaboradora Laura de Paula, professora da UFAC que trabalhou a matéria jogou pesado na redação para obter espaço, e não se conformou com as duas páginas (9 e 10) oferecidas. Imagino que até hoje ela anda intrigada comigo e com o Silvio Martinelo, que tivemos de bater o martelo.
Na verdade, era compreensível a insistência da Laura. Ela tinha vindo do Rio de Janeiro com o marido Maurício, também contratado pela Universidade Federal do Acre, e se deparou com cenas chocantes no cotidiano da periferia de Rio Branco, decorrente do pouco caso que a Prefeitura fazia da Limpeza Pública. Os ratos a deixaram muito assustada, principalmente depois que ela ouviu o relato de que um deles tentara comer o pênis de um recém-nascido.
Na verdade, Laura se deparara com a realidade cruel das famílias expulsas dos seringais e que viviam completamente desarrumadas na cidade. Naqueles tempos escassos de cidadania, o dinheiro público servia apenas para alimentar outros ratos, de duas pernas, que pouco se lixavam para o inferno astral do povo. A impunidade grassava nas elites que só tinham olhos para suas gordas contas bancárias.
Os “empoderados” da época não perceberam a astúcia de um movimento popular que se organizava e crescia com apoio de um jornal alternativo, pequeno e pobre, mas enjoado. Tampouco imaginavam que o partido criado pelos povos da floresta chegaria ao poder nos anos 1990, impondo de lá para cá, mudanças sociais, políticas e de gestão importantes.

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