domingo, 9 de janeiro de 2011

Varadouro 17 Peregrinações do Varadouro

Peregrinações do Varadouro
por Elson Martins
Em dezembro de 1979, após imprimir algumas edições na gráfica Dois Oceanos, em Rio Branco, de propriedade do empresário português Carlos Abrantes, a equipe do Varadouro teve que peregrinar novamente em outros estados para imprimir a edição 17. Antes tinha recorrido a Manaus, Brasília e São Paulo. Desta vez, a solução foi encontrada na Neográfica Editora Ltda, localizada à Rua Gaspar Viana, 773, em Belém do Pará.
Em todas as situações em que precisou procurar gráficas em outros estados - porque os podres poderes locais da época (1977 a 1981), incomodados, torciam pelo desaparecimento do jornal - foi fundamental o apoio de periódicos que formavam a rede de imprensa alternativa do país. No eixo Rio - São Paulo, por exemplo, o semanário “Pasquim” comportou-se como grande parceiro. Através de sua editora de livros, a Codecri, mandou para Rio Branco exemplares de seus lançamentos, autorizando que o dinheiro da venda ficasse com o Varadouro.
Em São Paulo, o jornal “Movimento” também deu uma mãozinha divulgando, através de seu pessoal, o alternativo acreano na capital paulista. Em capitais como Belo Horizonte, Brasília, Goiânia, Porto Alegre, Recife, Fortaleza e Belém, entre outras, tinha sempre alguém ligado a publicações alternativas locais cuidando da distribuição do Varadouro nas universidades e em bancas visitadas por estudantes e militantes. Cidades como Belo Horizonte, Brasília e São Paulo vendiam até 300 exemplares de cada edição. Em Belém, o jornal “Resistência”, capitaneado pelo jornalista Paulo Maklouf, facilitava a vida do alternativo acreano.
Graças a essa rede solidária, naqueles anos de chumbo, o Varadouro foi notícia várias vezes na mídia nacional. E mereceu carta e anúncio no “Pasquim”, assinados pelo genial cartunista Henfil. Também o “Jornal do Brasil”, em reportagem de página inteira sobre a imprensa alternativa brasileira, colocou o nanico acreano em destaque, reconhecendo a linguagem limpa, honesta e corajosa.
Bom, esta edição 17, que está sendo disponibilizada em PDF no site da Biblioteca da Floresta, podendo ser copiada e difundida, contém uma amostragem desse jornalismo despojado, independente e comprometido com os seringueiros, ribeirinhos, índios e posseiros que empreenderam as lutas socioambientais no Acre, impedindo que ocorresse no Estado a devastação amazônica financiada pelo então governo militar.
O destaque da edição são as matérias Operação Pega Fazendeiro I e Operação Pega Fazendeiro II, nas quais são descritos, com clareza, dois conflitos entre fazendeiros e seringueiros ilustrativos da violência perpetrada contra os povos da floresta na época. A Operação I aconteceu nos seringais Guanabara e Icuriã, nas cabeceiras do rio Iaco, no município de Sena Madureira, onde mais de 100 seringueiros aflitos precisaram agir contra uma cooperativa de empresários do Sul que queria passar com motosserra sobre as suas colocações de seringa; na Operação II, no seringal Nova Empresa, nas proximidades de Rio Branco, os posseiros acabaram matando um capataz e seu auxiliar, tendo que passar, depois, maus momentos nas mãos da Polícia e da Justiça.
As 24 edições do Varadouro que formam a coleção completa, aos poucos disponibilizada neste site, geraram e continuam gerando teses e dissertações acadêmicas, deixando sua marca na história acreana. É exemplo de jornalismo engajado na luta dos povos da floresta, em defesa da vida humana e do seu meio ambiente amazônico.
A capa da edição 17 expressa a tendência, naqueles tempos, de substituir o homem pelo boi na floresta acreana. É a reprodução de um quadro do seringueiro artista plástico Hélio Melo - autodidata primitivo e surrealista, - que pintou com traços definitivos a crueldade e burrice dos invasores que agiam em nome de um progresso absurdo.

Varadouro 18: Violência no Acre

Varadouro 18: Violência no Acre
por Elson Martins
Em março de 1980, portanto há 30 anos, os jornalistas que faziam o jornal alternativo Varadouro já percebiam e anunciavam: “A violência está aumentando no Acre”. A frase virou título de capa da edição número18, e a matéria ocupou as duas páginas centrais (12 e 13). A abertura sobre o tema tem cara de editorial, como se pode ver neste trecho:
“À véspera do carnaval, três jornalistas aguardavam na sala do diretor de Polícia Judiciária, Américo Carneiro Paes, uma entrevista com o secretário de Segurança Pública que ia anunciar a proibição da moda topless. Encontravam-se na sala, um capitão da PM que aparentemente tinha audiência marcada com o secretário, um senhor idoso e forte com ares de carcereiro e um jovem de cor, de seus 20 anos, que estava sentado numa cadeira com as mãos postas entre as pernas e a cabeça abaixada”.
“O diretor de polícia, Américo Paes, um tipo magro e agitado que age como se tivesse um acúmulo exagerado de serviço sobre a mesa, folheava um grosso volume contendo o Código Penal e instruía o sujeito com cara de carcereiro sobre o que fazer: “Aplica este artigo aqui e este aqui. Peraí! - deixa eu escrever. Combina este com este e ouve quatro testemunhas. Não precisa que tenham visto a cena, pois essas coisas nunca se vê. Basta que tenham sabido da família, da vizinha, pelo rádio, televisão ou pelo escambau. Aproveita e identifica logo esse camarada criminalmente”.
Quando o carcereiro saiu com sua presa, o diretor virou-se para os jornalistas e declarou: “Com tanta mulher boa no Acre esse sujeito vai comer uma menina de três anos! Por isso que vocês criticam a Polícia: num caso desses o cara tem que levar porrada mesmo!” Na seqüência, o capitão da PM defendeu o ponto de vista de que os policiais não conseguem agir segundo as leis que asseguram defesa ao acusado, porque “há um sentimento de justiça próprio, mais forte, que fica por conta do temperamento de cada um”.
“A partir daquelas declarações, os jornalistas ficaram mais convencidos do espírito de arbitrariedade que orienta as ações das mais responsáveis autoridades da segurança pública no Estado, e de como estas, de um modo geral, revelam-se incompetentes para a função que exercem”.
Ainda na matéria sobre violência, o jornal cita práticas de tortura que eram comuns nas delegacias do interior do Estado. Em Brasiléia, um delegado de polícia adotou métodos originalíssimos, obrigando um grupo de pescadores a “rastejar como cobra, ciscar como galinha e piar como pinto”. Em outros municípios, foram utilizadas substâncias como peixe cru, pimenta, urtiga e cipó ambé nas sessões de tortura.
Na época, o coronel carioca Carlos Alberto Martins Santos comandava a Polícia Militar do Acre e assumia interinamente a Secretaria de Segurança Pública. A população o tinha como sujeito arbitrário, que protegia policial violento e encobria crimes de agentes civis. Ao Varadouro, porém, ele procurou mostrar-se um militar sereno e correto. Até rasgou seda ao descrever o infrator acreano:
- O criminoso puro, frio, aqui no Acre não tem, não. Jagunço aqui no Acre, vocês já viram algum? São todos de fora, contratados em outros estados. O criminoso daqui pratica o ato ou por bebida ou por questão de mulher, mas passando o efeito é uma pessoa normal. Eu sempre digo que o Acre é um paraíso, e tenho medo de que não vá continuar assim. De certa forma, é a dificuldade de acesso que faz a gente viver tranqüilamente por aqui.
Bom, já se foram 30 anos desde que o coronel falou isso. E, certamente, ele acabou fazendo, naquela época, alguma previsão correta: os problemas enfrentados hoje pelas autoridades de segurança são maiores e mais complexos; muitos deles, originados aqui mesmo.
A edição 18 tem também, na página 3, uma entrevista histórica com o ex-vereador do PMDB de Xapuri, Chico Mendes, que, decepcionado com sua bancada, resolvera renunciar ao mandato e voltar à condição de seringueiro, retomando a luta contra os fazendeiros que desmatavam a floresta para plantar boi. A entrevista foi feita pela antropóloga Mary Allegretti, curitibana que se tornou grande amiga de Chico e a principal responsável por sua projeção internacional.
Outra entrevista que repercutiu muito se encontra na página 9: Varadouro ouviu o professor da área de Biologia da Universidade Federal do Acre, Mauricio Mendonça, presidente da Associação dos Professores (Adufac) demitido pelo reitor Aulio Gélio Alves de Souza, de forma considerada injusta. O título da entrevista é “Mais uma cabeça que rola”, e o jornal começa jogando pesado: “Depois de muitas mentiras e trapaças, o reitor da Universidade Federal do Acre”...
O jornal destaca, ainda, uma mesa redonda com as lideranças políticas da Frente Popular e o “dissidente” Abel Rodrigues Alves que reorganizava o PTB no Acre; e o desabafo de lideranças indígenas contra a Funai e os responsáveis pela Casa do Índio em Rio Branco, que não respeitavam os donos da casa. Um destes, indignado com as humilhações impostas por uma cozinheira contratada pela Funai explode: “Não vim aqui pra lavar bosta”!
Varadouro notabilizou-se por respeitar a linguagem daqueles que sofriam na pela violência, nos 1970/1980, achando desnecessário rebuscá-la, minimizando o tom junto da revolta.

Varadouro 19: mentiras e lágrimas

Varadouro 19: mentiras e lágrimas
Por Elson Martins
Impresso numa gráfica de Belém (PA), sem acompanhamento de revisor, a edição apresentou logo na segunda página, reservada à seção de cartas, uma incômoda troca de títulos: “Pau no HP” saiu no lugar de “O patrão mentiu”. O primeiro se refere a uma carta enviada de Salvador (Bahia) metendo o pau nos distribuidores locais do jornal “Hora do Povo” (editado pela tendência de esquerda liberdade e Luta ou simplesmente LIBELU). Chega a acusá-los de cometer “atos agressivos, antidemocráticos e repressivos contra as oposições populares”.
“O patrão mentiu” é o título da segunda carta, escrita por Hercília Zaparoli Siena, mãe do capataz do seringal Nova Empresa, Carlos Sérgio Zaparoli Siena, morto em julho de 1977 juntamente com seu auxiliar, Oswaldo Gondim, dois cavalos e um cachorro numa emboscada montada por seringueiros que ele queria expulsar das terras. O seringueiro Caetano, pai de 18 filhos que havia se queixado até para o governador das ameaças do capataz, sem resultado, comandou o tiroteio fazendo sua própria justiça.
O patrão de Carlos Sérgio, Arquimedes Barbieri, foi ouvido na época pelo Varadouro e procurou eximir-se de culpa. Disse que seu capataz “era um menino revoltado” e que sentiu muito sua morte porque, quando a mãe dele o conheceu falou: “Seu Barbieri, o meu filho Sérgio tem um temperamento exaltado. Pelo amor de Deus, controle ele pra mim”!
Barbieri fazia parte de um grupo de 10 fazendeiros do Sul que adquiriu o seringal Nova Empresa, nas proximidades de Rio Branco e o retalhou em glebas. Assustado com o acontecimento, levou o corpo do capataz para enterrar em Batatais (SP), onde conversou novamente com a senhora Hercília, que, segundo ele teria dito: “Seu Barbieri, eu tenho que agradecer ao senhor. Sei de fonte fidedigna que o senhor não teve culpa nenhuma. Ele tinha mesmo um temperamento exaltado e a gente sempre tinha medo”.
Quando montávamos esta edição em maio de 1980, entretanto, o advogado da família que atuou na acusação dos posseiros (foram todos absolvidos) telefonou para um editor do jornal pedindo que fosse publicada esta carta da mãe de Carlos Sérgio:
“Senhor redator:
Somente agora, após o julgamento dos matadores de meu filho, tomei conhecimento da entrevista que o senhor Arquimedes Barbieri concedeu ao seu periódico “Varadouro”, edição de agosto de 1977.
Assim, me apresso a respondê-la para, com a necessária veemência, refutar inverdades que foram ditas, as quais atribuo à preocupação do senhor Arquimedes em preservar seus interesses econômicos neste estado.
Em verdade, meu filho Carlos Sérgio Zaparoli Siena jamais demonstrou, na sua vida familiar, “temperamento exaltado”, sempre foi um filho dedicado cujas lembranças me são muito caras, e a saudade de intensa dor. Também não traduz verdade integral a sua fala sobre nossa conversa no Cemitério Municipal de Batatais, cidade do interior do Estado de São Paulo onde repousam os restos mortais de Carlos Sérgio. Naquela oportunidade, eu o agradeci pelas providências que tomou ao transladar o meu filho de Rio Branco para Batatais, nada além.
Deixo, pois, muito bem salientado que Carlos Sérgio sempre se mostrou um ótimo filho, um irmão extremado, um amigo dedicado. De temperamento extrovertido, muito alegre e comunicativo. Quando falava do Acre o seu entusiasmo era contagiante, e jamais demonstrou qualquer preocupação que nos fizesse desconfiar do perigo que corria, cujo desenlace foi para a família surpresa absoluta, eis que o senhor Arquimedes só se referia a meu filho com elogios, e não me alertou da realidade.
Por fim, quero dizer que meu marido, meus outros dois filhos e eu morremos um pedaço com a morte prematura do Carlos Sérgio, razão porque deploramos a violência que contra ele se perpetrou. E fundamentados em infindável dor e inafastável saudade, imploramos aos responsáveis pela solução do grave problema da terra no Acre; que se mostrem mais sensíveis resolvendo o litígio, a fim de evitarem outras dores, preservando mães, pais e irmãos de perdas irreparáveis, de dor sem cura, de espera sem fim, de saudade que é morte.
Senhor redator, a publicação desta correspondência é um favor que solicito, pois à mãe que dá vida ao filho, quando perde só resta resguardar a sua memória. Aliás, assim o fazendo, o senhor está restaurando a verdade.
Respeitosamente,
Hercília Zaparoli Siena”.
A dor de dona Hercilia não foi maior que a dor das mães acreanas arrancadas com os filhos de suas moradas tradicionais na floresta para viverem situação de miséria na cidade. Não foi maior que das mães e esposas dos líderes assassinados por discordarem da transformação dos seringais acreanos em pastos para bois. Na matéria de capa desta edição, “Os novos donos do Acre”, Varadouro mostra uma lista dos poderosos parceiros de Arquimedes Barbieri, que infelicitaram a vida de muitas famílias da região utilizando métodos violentos para “limpar” as terras dos ocupantes tradicionais. Para isso instrumentalizaram jovens “cow-boys”como Carlos Sérgio.
Um relatório do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) feito em 1979, registra no Estado 218 latifúndios por dimensão que detêm uma área total de 5,8 milhões de hectares, ou seja, mais de um terço das terras acreanas onde viviam milhares de famílias extrativistas. Muitas foram expulsas por capatazes que espalharam terror na floresta. Se não fosse a reação de seringueiros como seu Caetano, o Acre teria sofrido tragédia maior.

Varadouro mais urbano

Varadouro mais urbano
Elson Martins
Há 29 anos, em abril de 1981, o presidente dos metalúrgicos do ABC paulista, Lula da Silva, declarou ao jornal Varadouro, edição número 20:
- Não surpreendem os vários processos abertos em todo o país contra os trabalhadores e o seu partido, o PT. O que é estranho é existirem pessoas que ainda acreditam que o Brasil vive um processo de abertura política. Se alguma abertura existe, ela é apenas para os detentores do poder. Assassinaram Wilson de Souza Pinheiro. Alguém viu algum processo para apurar os mandantes deste crime?
Na mesma matéria, publicada na edição número 20, página 13, agora disponibilizada pela Biblioteca da Floresta, neste site, o líder seringueiro Chico Mendes protestou:
- O seringalista Guilherme Lopes pegou o microfone da Rádio 6 de Agosto de Xapuri e disse que a solução era matar. Vinte dias depois, mataram o Wilson Pinheiro. Ele foi o estopim. Agora, me acusam de ter transmitido a notícia aos jornais. Um absurdo. É uma tentativa de acabar politicamente comigo e com outros dirigentes. Querem amarrar minhas mãos para impedir que desenvolva meu trabalho. Entretanto, mesmo se for condenado e perder o mandato, a luta vai continuar. E se me prenderem vai surgir mais dez “Chico Mendes” em Xapuri.
Na época, Chico Mendes era vereador em Xapuri, pelo MDB, e fora enquadrado na Lei de Segurança Nacional junto com Lula, Jacob Bittar, José Francisco (presidente nacional da Contag) e João Maia. Depois de muito aperreio, foram inocentados. Lula estava errado quanto à abertura do regime militar, que de fato acontecia, mas Chico Mendes foi profético: a luta continuou e o PT se mantém hoje no poder, no país e no Acre.
Chama atenção a coerência e a persistência do Varadouro ao registrar com coragem e exatidão os acontecimentos que sacudiam o Acre na época, quando se sabe que o jornal circulava a duras penas, com a periodicidade se ampliando de edição para edição. Entre as edições 19 e 20, por exemplo, o intervalo foi de nove meses (maio de 1980 a abril de 1981), mas o fio da história não se rompeu no jornal.
No período, dois líderes das lutas socioambientais no estado tombaram em mãos assassinas: o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, Wilson Pinheiro, e o líder comunitário João Eduardo, que atuava na outra ponta do conflito, procurando acomodar na capital, em bairros que nasceram de invasão, as famílias expulsas dos seringais pelos fazendeiros recém-chegados de outras regiões do país. Os assassinos do Wilson Pinheiro permaneceram impunes, mas o Varadouro cobrava providências na página 13 suspeitando, com ironia, da atitude dos órgãos de segurança:
“Os primeiros policiais a chegarem ao local do crime, ao invés de correrem atrás do pistoleiro, permaneceram na sede do sindicato esperando, quem sabe, que o matador viesse se entregar”.
Os seringueiros sindicalizados deram o troco matando o principal suspeito, o capataz da fazenda Nova Promissão Nilo Sérgio de Oliveira. O troco aconteceu após a realização de um ato público em Brasiliéia, uma semana após a morte de Wilson Pinheiro (21 de julho de 1980), do qual participaram ativistas políticos nacionais como o então dirigente metalúrgico Lula da Silva, hoje Presidente da República. Entre outros discursos inflamados, Lula falou que “está na hora da onça beber água”, o que foi entendido pelos órgão de segurança como incitação ao crime. Daí veio o enquadramento dos cinco líderes na Lei de Segurança Nacional. Varadouro tratou do assunto na matéria “Cadeia para trabalhadores e flores para os patrões”, publicada na página 12.
Esta edição revela, também, que o Varadouro estava se voltando para temas mais urbanos. Por isso destaca nas páginas centrais que os novos bairros formados por invasão “lutam para sair da miséria”, e tome alfinetada nos políticos descompromissados. O jornal se preocupou em preparar uma lista dos diversos grupos, dando nome e função de seus membros, incluindo aqueles que ficavam na “coluna do meio”.
Também mereceu destaque na edição um tema ainda tabu na época: Santo Daime. O jornal entrevistou um conselheiro da doutrina, José das Neves, que há 51 anos ingeria a bebida em companhia da esposa, dona Ester. “Se acabar a floresta – diz ele na entrevista – então pode terminar com a humanidade que não vale mais nada. Sabe porquê? A floresta nos dá vida e a vida sopra de lá e cobre o mundo”.

Varadouro 21: próximo do fim, mas...

Varadouro 21: próximo do fim, mas...
Por Elson Martins
A três edições do fim, o jornal Varadouro ainda falava em recomeço, como se vê no pequeno editorial disfarçado em “Neste Número” que abre a segunda página da edição 21, de maio de 1981:
“Com o retorno em abril, depois de uma paralisação forçada de mais de seis meses, Varadouro – um Jornal das Selvas sofreu um processo de um deputado do PDS, deixou o governador irritado com a imprensa independente e foi perseguido no interior do Estado. Um agente federal de repente interessou-se pelo jornal e andou pela nossa redação bisbilhotando. Isso prova que Varadouro não perdeu sua vitalidade e retorna em tempo de retomar sua caminhada em defesa das classes oprimidas da sociedade. O fato de estarmos circulando com um novo número em maio mostra que estamos em condição de manter sua periodicidade. Para isso contamos com mais colaboradores e com clientes que sabem valorizar a sua publicidade. Mas, no fundo, estes também estão compreendendo os objetivos do jornal. Neste número damos destaque para a matéria sobre a fome na periferia de Rio Branco e para a crise da Universidade Federal do Acre. O reitor Aulio Gélio é velho conhecido nosso, pois de vez em quando mostra suas garras de reizinho absoluto. Só que agora seu reinado parece desmoronar. Também procuramos abrir novos espaços para os leitores. Nesta edição é a vez do homossexualismo. Vamos ver no que dá”.
O deputado do PDS que processou o jornal foi Altemir Passos, também radialista de prestígio na época. O governador era Joaquim Macedo, que ao ser nomeado em 1979 (não tinha eleições durante a ditadura militar), até contara com a simpatia do Varadouro, porque, orientado por seu padrinho político Geraldo Mesquita, se comprometera a apoiar a luta dos seringueiros e índios, e de travar o processo de pecuarização do Acre. O problema é que as pautas e a linguagem independente do jornal incomodavam, mesmo aos simpatizantes.
Quando parte da equipe do Varadouro assumiu o controle de A Gazeta do Acre, em 1981, o cabo de guerra com o governador se rompeu de vez: o diário sobreviveu a pão e água, enquanto o governador era recomendado por seu médico cardiologista a não ler a coluna Gazetinhas. Da equipe de governo, apenas seu cunhado e chefe do Gabinete Civil, Elias Mansour, mantinha-se cordial com os jornalistas do jornal que era uma extensão do Varadouro.
O sociólogo e professor universitário Pedro Vicente Costa Sobrinho produziu a tese de doutorado “Comunicação Alternativa e Movimentos Sociais na Amazônia Ocidental”, publicada em 2001 pela editora da Universidade Federal da Paraíba, na qual faz um alentado estudo do Varadouro. Na página 194 do livro o professor diz:
“Varadouro 21, ano IV, maio de 1981, publicou matéria com o título: “Greve na Universidade abala o autoritarismo”. O jornal fez uma excelente retrospectiva da trajetória do movimento estudantil universitário no Acre, desde 1977. O marco inicial foi a eleição da chapa Seringueira para o DCE; e, daí por diante, fatos importantes foram sendo enumerados até o momento da deflagração da greve. O movimento grevista listou uma pauta de reivindicações, mas o principal motivo foi a demissão sumária do professor Rômulo Garcia, presidente da associação de docentes. Um outro professor havia sido demitido por motivos ainda pouco claros. O movimento se alastrou por todos os cursos e ganhou as ruas com o objetivo de conquistar o apoio da sociedade. Varadouro anunciou o surgimento de uma nova força, e comentou: “Os estudantes entraram definitivamente na cena política do Acre. Entraram ‘por baixo’, isto é, colados ao movimento popular. A UFAC é sustentáculo e alimento da política, do empreguismo e do oportunismo da classe dominante. O movimento dos estudantes traz à luz do dia as forças comprometidas com esse esquema (...), e balança as estruturas desse poder no Acre”.
O jornal denuncia, também, de que lado estava o Governo do Estado, pois este mandara prender 21 seringueiros que haviam feito um empate contra o grupo Bordon, no seringal Nazaré.

Varadouro 22: tempo de mudança

Varadouro 22: tempo de mudança
Elson Martins
Na seção “Neste Número” que abre a página 2, Varadouro sempre aproveitava para fazer um pequeno editorial. Nesta edição (n.22), que circulou em junho/julho de 1981, o jornal anuncia que muitas pessoas procuram sua redação “em busca de um espaço para discutir e expressar suas dúvidas, perspectivas e anseios”. E professa que “Varadouro pretende ser uma escola. Não uma escola onde os doutores sabidos estão de um lado, e os ignorantes de outro. Mas uma escola onde todos ensinam e aprendem, onde se possa trocar as experiências, enriquecer individualmente e desta forma possibilitar o fortalecimento das nossas lutas. Se ainda estamos longe de chegar lá, grande é a vontade para reunir, de fato, o maior número possível de pessoas que questionem a si e ao mundo em sua volta, bem como para incorporar todas as causas justas”
“Neste número – prossegue o texto – mais uma vez trazemos os temas aos quais nossos leitores já se habituaram. Ou seja, é o mesmo Varadouro de sempre, combativo, não estático, evoluindo junto com as lutas de várias parcelas da população”.
O que o pequeno editorial não diz é que o jornal se aproximava do fim. Com mais duas edições (23 e 24) fecharia as portas encerrando uma vida curta, mas corajosa e muito útil à sociedade acreana, sobretudo como instrumento de defesa dos valores históricos, ambientais, culturais, sociais, econômicos e políticos da região.
Na edição anterior o jornal já sinalizava com dificuldades intransponíveis para se manter. A ajuda em dinheiro da Prelazia do Acre e Purus, prevista para garantir apenas seis edições, esgotara nos dois primeiros anos, e já haviam se passado quatro com a idéia bíblica de multiplicar o pão. O expediente da edição 22 transparecia o esforço supremo: tinha gente nova arregaçando as mangas, a começar pela editoria. Na verdade, uma discussão interna e democrática havia determinado mudança: Elson Martins e Silvio Martinello se afastariam da editoria (ficariam na reportagem) dando lugar a Romerito Valle de Aquino, Marco Antônio Mendes e Antônio Alves Neto.
Os dois nomes continuavam aparecendo na editoria, mas era só pra constar. A nova ordem era dada pelo pessoal mais jovem relacionado na Redação: Antônio Alves, Antônio Manoel, Armando Soares, Fátima Almeida, Fernando La Roque, Francis Mary, Saulo Petean, Roberto Medeiros (Branco), etc.
O pequeno editorial esclarece: “Procuramos nos transformar para acompanhar a transformação da sociedade. Por essa razão é que não estamos apenas denunciando, mas apresentando também algumas reportagens estreitamente ligadas às lutas de diversos movimentos. É o caso dos estudantes, dos filiados aos sindicatos rurais do Acre, dos artistas, dos que procuram outras formas para sobreviver”.
Por fim, mais explicação e justificativas: “Talvez ainda nos falte o humor. Há quem diga que devemos ser sérios, mas não pesados. Enquanto não suprimos esta falha, procuramos compensar mexendo no visual e transmitindo um pouco de emoção: como a do fotógrafo da última página, revelando de forma poética uma realidade terrivelmente cruel”.
A edição que a partir de hoje estará disponível em PDF a todos os internautas mantém a qualidade que fez a fama do Varadouro, em matérias como: “A grande festa do PT no Acre”, “A Constituinte pede passagem”, “Acre: paraíso dos enlatados”, “Estão envenenando o Acre,”, “Akiri: tempo de mudança”, “Seringueiros apontam rumo para o sindicato”, “O exemplo da Colônia Cinco Mil”, entre outras.

Varadouro 23: tempo de mudanças

Varadouro 23: tempo de mudanças
Elson Martins
“Nesta edição, o novo em Varadouro está na matéria sobre educação infantil, onde se levanta algumas indagações acerca do significado da formação a partir da qual são moldadas nossas crianças. E também nos desenhos de Branco (Roberto Medeiros) – desenhos jovens que retratam a vida com humor e serenidade”.
É o que está dito no editorial da edição 23 do Varadouro, que circulou em agosto/setembro de 1981. Os desenhos de Branco, um tanto surrealistas, ocupam as páginas 14 e última. Na página 14 o jovem desenhista descreve “uma viagem fantástica à Estexper, estação orbital do planeta” e anuncia: “Estamos no ano de 1981, o ano versátil por excelência. O homem já foi à Lua, está perto de Marte e já existe o orgasmo múltiplo”.
Decididamente, o Varadouro buscava uma linguagem urbana adequada às mudanças de comportamento que se impunham na agitada Rio Branco dos anos 1980. A ditadura militar começava a entregar os pontos, o bar Girau, da Socorro, perdia sua clientela de esquerda para o Casarão e para o Café Concerto, da Rose, que se tornou o “point” da boemia com liberdades infinitas. O local de abrangência do bar (rua Alvorada, Bosque) ficou conhecido como “Esquina do Pecado”.
E tinha, sobretudo, as mudanças no plano político e ideológico. No livro Comunicação Alternativa e Movimentos Sociais na Amazônia Ocidental, o sociólogo Pedro Vicente Costa Sobrinho faz um estudo inteligente das agruras e venturas do Varadouro (tema de sua tese de doutorado na Universidade de São Paulo) mostrando fatos que influenciaram no fechamento do jornal na edição 24, em dezembro de 1981. Na página 163 da obra publicada em 2001 pela Editora Universitária da Universidade da Paraíba, ele informa:
“Observa-se que a partir de 1979, além dos encargos com a correspondência dos jornais O Estado de S. Paulo e Jornal do Brasil assumidos pelos jornalistas Elson Martins e Silvio Martinello, editores e principais repórteres do Varadouro, estes passaram a editar o diário Gazeta do Acre, no qual parte da equipe de redação do alternativo engajara-se. A sobrecarga de trabalho daí proveniente repercutia, com certeza, no desempenho do jornal das selvas, tanto é que no ano de 1979 apenas circularam quatro edições. Em 1980, só duas edições: março e maio. A equipe já vinha revelando um certo cansaço, resultante, em parte , das dificuldades naturais de se fazer um alternativo no Acre. Por outro lado, a abertura democrática, a suspensão da censura, a anistia etc., enfim, a crise da ditadura alargou as possibilidades de a grande imprensa tratar de assuntos antes reservados aos alternativos. Além disso, os partidos e agrupamentos da esquerda clandestina ensaiavam o rompimento das frentes, e ainda começavam a organizar seus próprios meios de comunicação. Na imprensa alternativa mais política o fato já veio antes ocorrendo, pois o Opinião gerou o Movimento, que gerou o Em Tempo, que gerou o Amanhã e daí por diante”.
Pedro Vicente informa que “no Acre o PC do B articulou a distribuição do Movimento chegando a vender 150 exemplares semanais e manter mais de 80 assinantes mobilizando para isso pessoas ligadas à esquerda católica e às CEBs (Comunidades Eclesiais de Base). Outros jornais ligados à esquerda começaram a mobilizar sua militância para que fossem distribuídos: Hora do Povo, O Trabalho, etc. O ajuntamento de outras pessoas ao grupo, anunciado pelo Varadouro, em editorial na edição de abril de 1981, estava longe de assegurar a permanência do jornal”.
A qualidade do Varadouro, contudo, não foi alterada com as mudanças. Esta edição tem como matéria de capa uma ampla reportagem sobre os migrantes que chegam do sul do país procurando um pedaço de chão nos projetos do Incra. Fragilizados, com um histórico de expulsões em outras regiões, eles falam de seu calvário com indignação, mas não perdem a esperança. Eles vieram de Itaipu com crianças e caixotes e foram jogados em barracos improvisados no projeto Pedro Peixoto. Mas a situação de onde eles vieram era pior.
”Enquanto eu tiver vida – diz o baiano Arnaldo, vindo do Paraná – eu quero mexer com o corpo”...

Páginas